Recentemente fui a um casamento de uma pessoa… Tudo começa aí!
Como é colega de minha noiva, não posso deixar de ir…
Fui! Coloquei o inútil adereço masculino (gravata) e observei a cerimônia que iniciou com música do período romântico, passou por MPB, uma música francesa, e, por fim, Claudinho e Bochecha!!! Sim!!! Não se espantem… Claudinho e Bochecha na igreja!!!
Pensei que suportaria tudo isso sem grandes problemas…
Começava a pensar: Será que ela vai querer aparecer na festa? Se os noivos tocaram Claudinho e Bochecha na igreja, o que não tocariam na festa?
O silêncio sobre o assunto indicou que a festa era certa…
Vamos lá!
Afinal de contas a companhia dela é muito! Ainda mais algumas outras estavam acrescidas.
Vamos! Vamos a quase o outro extremo da cidade. Muitos carros, confusão, gente demais…
Tento estacionar em um lugar próprio, mas está lotado. Não vou deixar a chave do meu carro na mão de um sujeito que não conheço.
Estaciono na rua, onde um sujeito tenta me guiar, e como se eu não conseguisse fazê-lo sozinho… Tudo bem, pensei.
Quando desço do carro o sujeito mostra um pedaço de papel onde só consigo ver “R$ 5,00”.
Ele assevera: “pagamento adiantado!”.
O primeiro pensamento foi:
“(Prisão em flagrante por extorsão – art. 158 do CP). Tem um sujeito que parece conhecê-lo a uns cinco metros. Ele tem 1,65m, uns 60kg e aproximadamente 50 anos. O ‘amigo’ tem 1,75m, 85 kg e uns 40 anos. Não é difícil fazer a prisão. Devo chamar a polícia depois ou antes?”
No segundo seguinte pensei em minha noiva…
Plano “B”.
Olho para ele e digo: “Depois conversamos!”. Entrego o papel.
Ele em um tom mais ameno, diferente do inicial. “Colabore com o pessoal! Trabalho aqui já faz tempo, em casamento, formatura, com o pessoal…”. Tocando meu braço, como em uma atitude mais amistosa.
Penso novamente no flagrante, mas penso na minha noiva. Tiro o seu braço do meu, em uma atitude nítida de reprovação. “Já disse que depois conversamos!”. Desta vez fui mais enfático, olhando diretamente para ele.
Minha noiva, pensando em me proteger, disse para mim: “Isso não vai funcionar assim…”
Paga a extorsão.
Ele tenta puxar conversa, mas estou concentrado em não ceder a prendê-lo.
Olho diretamente para ele para facilitar posterior identificação, mesmo que antes conseguisse fazer com relativa facilidade.
Observo ela se aproximar de mim e a acompanho.
Vou para festa consumido por um sentimento de injustiça. Penso nas pessoas que ele já extorquiu e em quantas ele vai extorquir…
Na festa ela me pede desculpas. Sei que ela o fez para me proteger, proteger o meu carro, proteger os meus pertences dentro do carro. Como poderia “desculpar” uma pessoa que tenta me proteger? “Não há o que desculpar…”. Ela não acredita muito. Dá para ver nos olhos dela. Estou sendo sincero quando falo.
O barulho da festa é ensurdecedor…
Na volta pergunto se ela não quer que eu pegue o carro e traga. Ela, como a maioria das mulheres, está usando um sapato bonito e extremamente desconfortável. Ela insiste em me acompanhar. Disse que não me deixaria com “ele” sozinho. Pergunto o que ela faria para me proteger. Ela disse que gritaria. Fico pensando na cena e começo a rir.
No caminho para o carro eu o observo com o outro. Na mesma esquina.
Ele vem com um tom subserviente: “Olha aí Dr., inteirinho, tudo certo! Bem que o Sr. disse que ia voltar cedo.”. Tenta colocar a mão no meu braço, ao que é repelido.
“Tudo certinho, não é?”
Paro. Espero ela entrar no carro. Olho para ele e respondo: “Quase”.
O “Quase” teve vários sentidos…
“Quase” certo…
“Quase” que você ia preso hoje…
“Quase” que podia ter me metido em uma confusão que poderia me arrepender…
“Quase” que podia ter me metido em uma confusão que poderia não me arrepender…
Tudo isso em nome de um conceito que considero justo…