Pequenos comentários sobre “O leve e o pesado” (Marcelino Lira)

24 10 2009

Conversando sobre o conteúdo de “O leve e o pesado” com a minha amantíssima  e preferida crítica, fui levado a refletir sobre a natureza “benéfica” do pesado…

É bom esclarecer que ela não é depressiva, ou coisa que o valha, mas apenas ponderou sobre algumas colocações.

O “pesado” tem a sua função?

Dependendo do que se considere “pesado” a resposta será inevitavelmente afirmativa.

Por exemplo, se o “pesado” for o contato com a realidade ou mesmo o ato refletido e responsável. Caso seja essa a interpretação o “pesado” não só é útil, passa a ser necessário.

Contrario senso é a consideração dos “pesos” que carregamos inutilmente na vida.

A exemplo disso podemos citar a necessidade de estar sempre “belo e jovem”, quadro cada vez mais comum na sociedade. Por que um homem ou mulher de cinqüenta anos precisa ter o corpo de um de vinte?

A polissemia do escrito propicia esta fantástica multiplicidade de sentidos!





O leve e o pesado. (Marcelino Lira).

14 10 2009

balao

O que é leve nos leva a olhar para cima,

O que é pesado nos leva a olhar para baixo.

O que é leve voa e logo o perdemos de vista,

O que é pesado afunda na areia.

O que é leve é próximo da cabeça,

O que é pesado machuca os pés.

No que é leve flutua a borboleta,

No que é pesado esmaga-se a serpente.

No que é leve baseia-se o amor,

No que é pesado ancora-se o ódio.

No que é leve vagueia a imaginação,

No que é pesado enterra-se a obrigação.

O que é leve inspira anjos,

O que é pesado aspira pútrido.

O que é leve compartilha,

O que é pesado cobiça.

O que é leve dá,

O que é pesado só recebe.

O que é leve quer saber,

O que é pesado sabe demais.

O que é leve vai,

O que é pesado é trazido.

Em que nos apoiamos para fazer o que fazemos?

Nos ligamos ao leve ou ao pesado?





Ecos do ão (Lenine)

14 10 2009

rebelião

Rebenta na Febem rebelião
um vem com um refém e um facão
a mãe aflita grita logo: não!
e gruda as mãos na grade do portão

aqui no caos total do cu do mundo cão
tal a pobreza, tal a podridão
que assim nosso destino e direção
são um enigma, uma interrogação

Ecos do ão

e, se nos cabe apenas decepção,
colapso, lapso, rapto, corrupção?
e mais desgraça, mais degradação?
concentração, má distribuição?

então a nossa contribuição
não é senão canção, consolação?
não haverá então mais solução?
não, não, não, não, não…

Ecos do ão

pra transcender a densa dimensão
da mágoa imensa então, somente então
passar além da dor da condição
de inferno e céu nossa contradição

nós temos que fazer com precisão
entre projeto e sonho a distinção
para sonhar enfim sem ilusão
o sonho luminoso da razão

Ecos do ão

e se nos cabe só humilhação
impossibilidade de ascensão
um sentimento de desilusão
e fantasias de compensação

e é só ruina, tudo em construção
e a vasta selva, só devastação
não haverá então mais salvação?
não, não, não, não, não…

Ecos do ão

porque não somos só intuição
nem só pé-de-chinelo, pé no chão
nós temos violência e perversão
mas temos o talento e a invenção

desejos de beleza em profusão
ideias na cabeça, coração
a singeleza e a sofisticação
o choro, a bossa, o samba e o violão

Ecos do ão

mas, se nós temos planos, e eles são
o fim da fome e da difamação
por que não pô-los logo em ação?
tal seja agora a inauguração
da nova nossa civilização
tão singular igual ao nosso ão
e sejam belos, livres, luminosos
os nossos sonhos de nação.

Ecos do ão
Ecos do ão





Intermitências do ódio (Marcelino Lira).

29 09 2009

Lebrun

As perguntas de Lebrun para iniciar as suas assertivas são extremamente pertinentes…

“Por que nos estendemos sobre tudo isso para falar do ódio? Primeiro, porque talvez seja útil sabermos por que ele nos habita, por que ele pode emergir em nós a cada instante, por que ele nos segue como nossa sombra?”(1)

Há quem acredite que nossas personalidades são esvoaçantes plumas angelicais, alimentadas unicamente por sua força vital essencial. Nisso dispensam a concretude de fatos evidentes sobre nossas potencialidades enquanto espécie.

O sadismo, por exemplo, pode ser a canalização mal direcionada de uma energia pulsional constante em todos os humanos. Alguns desvios no decorrer de sua vida e o quadro está implantado.

“O sadismo não tem, praticamente, nenhum objeto; não é “trivial”, mas “devocional”. É a transformação da impotência na experiência da onipotência, é a religião dos aleijados psíquicos.” (2).

O ódio é uma potencialidade que pode explodir a qualquer momento em qualquer pessoa. Por essa razão que entre os sete pecados capitais existe a “ira”…

É o “aleijo” que tem como parâmetro o “normal” ou o “normal” é que tem como parâmetro o “aleijo”? Ao denotativo e conotativo eu tenho a dúvida…

Referências.

(1) LEBRUN, Jean-Pierre. O futuro do ódio. Tradução de João F. C. Corrêa. Porto Alegre: CMC, 2008. p. 24.

(2) FROMM, Erich. A anatomia da destrutividade humana. Tradução de Marcos A. M. Matos. Rio de Janeiro: Guanabara, 1987. p. 389.





Extorsão e justiça…

28 09 2009

Recentemente fui a um casamento de uma pessoa… Tudo começa aí!

Como é colega de minha noiva, não posso deixar de ir…

Fui! Coloquei o inútil adereço masculino (gravata) e observei a cerimônia que iniciou com música do período romântico, passou por MPB, uma música francesa, e, por fim, Claudinho e Bochecha!!! Sim!!! Não se espantem… Claudinho e Bochecha na igreja!!!

Pensei que suportaria tudo isso sem grandes problemas…

Começava a pensar: Será que ela vai querer aparecer na festa? Se os noivos tocaram Claudinho e Bochecha na igreja, o que não tocariam na festa?

O silêncio sobre o assunto indicou que a festa era certa…

Vamos lá!

Afinal de contas a companhia dela é muito! Ainda mais algumas outras estavam acrescidas.

Vamos! Vamos a quase o outro extremo da cidade. Muitos carros, confusão, gente demais…

Tento estacionar em um lugar próprio, mas está lotado. Não vou deixar a chave do meu carro na mão de um sujeito que não conheço.

Estaciono na rua, onde um sujeito tenta me guiar, e como se eu não conseguisse fazê-lo sozinho… Tudo bem, pensei.

Quando desço do carro o sujeito mostra um pedaço de papel onde só consigo ver “R$ 5,00”.

Ele assevera: “pagamento adiantado!”.

O primeiro pensamento foi:

“(Prisão em flagrante por extorsão – art. 158 do CP). Tem um sujeito que parece conhecê-lo a uns cinco metros. Ele tem 1,65m, uns 60kg e aproximadamente 50 anos. O ‘amigo’ tem 1,75m, 85 kg e uns 40 anos. Não é difícil fazer a prisão. Devo chamar a polícia depois ou antes?”

No segundo seguinte pensei em minha noiva…

Plano “B”.

Olho para ele e digo: “Depois conversamos!”. Entrego o papel.

Ele em um tom mais ameno, diferente do inicial. “Colabore com o pessoal! Trabalho aqui já faz tempo, em casamento, formatura, com o pessoal…”. Tocando meu braço, como em uma atitude mais amistosa.

Penso novamente no flagrante, mas penso na minha noiva. Tiro o seu braço do meu, em uma atitude nítida de reprovação. “Já disse que depois conversamos!”. Desta vez fui mais enfático, olhando diretamente para ele.

Minha noiva, pensando em me proteger, disse para mim: “Isso não vai funcionar assim…”

Paga a extorsão.

Ele tenta puxar conversa, mas estou concentrado em não ceder a prendê-lo.

Olho diretamente para ele para facilitar posterior identificação, mesmo que antes conseguisse fazer com relativa facilidade.

Observo ela se aproximar de mim e a acompanho.

Vou para festa consumido por um sentimento de injustiça. Penso nas pessoas que ele já extorquiu e em quantas ele vai extorquir…

Na festa ela me pede desculpas. Sei que ela o fez para me proteger, proteger o meu carro, proteger os meus pertences dentro do carro. Como poderia “desculpar” uma pessoa que tenta me proteger? “Não há o que desculpar…”. Ela não acredita muito. Dá para ver nos olhos dela. Estou sendo sincero quando falo.

O barulho da festa é  ensurdecedor…

Na volta pergunto se ela não quer que eu pegue o carro e traga. Ela, como a maioria das mulheres, está usando um sapato bonito e extremamente desconfortável. Ela insiste em me acompanhar. Disse que não me deixaria com “ele” sozinho. Pergunto o que ela faria para me proteger. Ela disse que gritaria. Fico pensando na cena e começo a rir.

No caminho para o carro eu o observo com o outro. Na mesma esquina.

Ele vem com um tom subserviente: “Olha aí Dr., inteirinho, tudo certo! Bem que o Sr. disse que ia voltar cedo.”. Tenta colocar a mão no meu braço, ao que é repelido.

“Tudo certinho, não é?”

Paro. Espero ela entrar no carro. Olho para ele e respondo: “Quase”.

O “Quase” teve vários sentidos…

“Quase” certo…

“Quase” que você ia preso hoje…

“Quase” que podia ter me metido em uma confusão que poderia me arrepender…

“Quase” que podia ter me metido em uma confusão que poderia não me arrepender…

Tudo isso em nome de um conceito que considero justo…





Sem palavras!!!

30 08 2009

ironia





Homos laborandis…

27 07 2009

Hodiernamente temos a necessidade de produzir… Seja o que for, o ser humano está sendo compelido a produzir…

É uma necessidade quase maníaca!

Um caso interessante está na Universidade Federal de Pernambuco. Os professores de Filosofia foram, por assim dizer, punidos por não terem uma produção requerida.

A resposta deles foi simples: Preferimos não escrever a escrever coisa que não valha realmente a pena. A exigência passa e o escrito fica, e pior, fica o escrito de péssima qualidade…

Não digo que a inércia seja a saída, mas a produção desenfreada parece um absurdo. Não há planeta que agüente!





Sentimentos ambivalentes…

24 07 2009

Aquele que “deforma” a mulher é o mesmo objeto de amor.

Eis o quadro perfeito para o “estado puerperal”.

mulher gravida

Mulheres… Não pensem assim…

Não há deformidade, senão beleza singular!





Lacan…

21 07 2009

Lacan“É igualmente nesse momento que nasce a noção de instinto agressivo, e que se faz necessário acrescentar à libido o termo destrudo, não sem razão, pois, a partir do momento em que seu objetivo [...] as funções essenciais dessas relações imaginárias tais como aparecem sob forma de resistência, surgem outro registro, ligado a nada menos que à função própria desempenhada pelo eu.”

LACAN, Jacques. Nomes-do-pai. Tradução de André Telles. Rio de Janeiro: Zahar. 2005. p. 30.





Só pode ter sido uma aposta…

18 07 2009

chewbacca

Alguém deve ter perdido uma aposta!