Até que ponto podemos olhar no espelho e não nos ver como uma cultura que cultua a ganância? Isso tem implicações criminológicas?
Vejamos…Quando nos olhamos no espelho nos reconhecemos. Isso parece normal para qualquer pessoa sadia, mas será que o observado, cito, a imagem, é “aquilo” que realmente somos?
Tentarei explicar a questão de forma não-lacaniana, visto que pretendo que todos entendam. A criança, quando se reconhece no espelho, sente um júbilo indescritível, pois se percebe como corpo físico inteiro. Algumas de suas constatações anteriormente realizadas a respeito de “eu” e “não-eu” se desfazem, pois percebe que existe uma delimitação do seu corpo físico e os outros corpos físicos, que podem ser pessoas ou não.A imagem deve realmente maravilhar, pois existe uma prova visual para o que antes era apenas uma cogitação da presença de coisas que “antes existiam” no corpo, e, momentos depois, “desapareciam”. O mais estranho é que depois voltavam a aparecer. Podemos citar o exemplo freudiano do seio materno… (FREUD, Mal-estar da cultura. ESB, 1929/1996. p.75). Contudo algumas patologias, já na fase adulta, podem servir de “mote” para captar algumas alterações, de percepção pessoal. A anorexia, por exemplo, pode gerar distorção de percepção visual. A pessoa se olha no espelho e é incapaz de se perceber como “magra demais”. O que vê é uma pessoa gorda, ainda que não o seja. Estranho é que ela consiga perceber a magreza excessiva nos outros.
A nossa cultura parece ter a mesma característica de falta de percepção de si mesma. Não somos capazes, enquanto cultura, de nos olhar e percebermos que damos mais valor aos bens materiais que a outros seres humanos. Que os manipulamos e exploramos para conseguir nossos interesses. Quando a cultura observar o outro ser humano como tal, tudo ficará claro. As vidas humanas terão o valor que merecem, assim como Jesus já falou, “em verdade vos digo que o rico dificilmente entrará no Reino dos Céus” (Mt, 19:23), pois o seu amor à riqueza faz com que ele desconsidere o outro como pessoa, mas mero objeto de corroboração à sua meta, no máximo. No mais das vezes, o outro é um apenas empecilho a ser eliminado!
Vamos olhar agora?