O outro e o eu (por Marcelino Lira)

25 08 2007

 

 

Paul Ricoeur 

 

No livro Mal-estar da cultura existe uma citação que é bem interessante em relação a formação do “eu”. Vamos a ela.

Uma criança recém-nascida ainda não distingue o seu ego do mundo externo como fonte de sensações que fluem sobre ela. Aprende a gradativamente fazê-lo, reagindo a diversos estímulos. Ela deve ficar fortemente impressionada pelo fato de certas fontes de excitação, que posteriormente identificará como sendo os seus próprios órgãos corporais, poderem provê-la de sensações a qualquer momento, ao passo que, de tempos em tempos, outras fontes lhe fogem – entre as quais se destaca a mais desejada de todas, o seio da mãe -, só reaparecendo como resultado de gritos de socorro. Desse modo, pela primeira vez, o ego é contrastado por um ‘objeto’, sob a forma de algo que existe ‘exteriormente’ e que só é forçado a surgir através de uma ação especial” (FREUD, S. O mal-estar da cultura. ESB, 1929/1996, p. 75-76.).

 Primeiramente, o outro não passa de uma “coisa” da qual se faz uso para obter prazer. Da mesma forma parece que, para longe de uma ética, tem acontecido. Cada vez mais se faz do outro, pessoa capaz de ser reconhecida como igual em direitos e consideração, como ‘objeto’, de tal forma que pode ser manipulado para obtenção de prazer. No mesmo, esquecendo-se que ele é igual, tirá-lo de sua caracterização inicial para vê-lo como empecilho para a obtenção de prazer e, para isso, possivelmente ser ‘removido’ como uma pedra do caminho, ainda que isso tenha como resultado a morte do outro (real ou psíquica)!  O resultado disso tudo só pode ser a violência, para alguns, injustificada, em relação ao outros. O referencial, cito, o outro, deixa de ser elemento de parâmetro de individuação.

Por outro lado, desconsidera-se a possibilidade de ser o outro parceiro de construção e compartilhamento. O isolamento é inevitável. O mal-estar anterior deixa a sua característica para se tornar plena infelicidade. Um sistema que evidentemente não funciona. Infelizes todos, a não ser que a neurose, a psicose e a perversão salve a todos de modo pouco ortodoxo…  

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