O homem castrado (por Marcelino Lira)

28 08 2007

O Grito de E. Munch

Hoje fui recebido em casa com a notícia que a minha noiva tinha sido abordada por um indivíduo de seus cinqüenta anos e que havia transformado momentos de aparente tranqüilidade, ao menos para a maioria das pessoas, em um terror que a fez chorar, no mínimo, dois minutos no meu peito.

Relato dela que, indo para o Shopping Plaza, dada a inércia do motorista que se encontrava um pouco a sua frente resolve contorná-lo, visto que ele movimentava-se muito lentamente. No mesmo, assim que passa por seu carro preto com luzes azuis, e já na cancela de entrada, escuta como que sirenes de polícia vindo do veículo preto que havia ultrapassado. Até aí o estranho estava na sirene do carro. Foi então quando entrou no estacionamento e estacionou que uma figura com seus cinqüenta anos de idade, cabelos grisalhos, barriga proeminente, encosta em sua janela e, aos berros, começa a gritar com ela. O assunto era que ela não tinha o direito de ultrapassar o carro de um homem. E que isso não se podia fazer. Relata que, nas seguintes palavras, aos gritos de plenos pulmões, disse:

“A senhora está louca? Acaso a senhora não sabe que não pode passar o carro de um homem? Tá louca? Tá pensando o quê? Eu sou homem! Muito homem! E tenho    p(…) mole, não é dura não!”(Passado um segundo onde percebe o que disse, retorna aos gritos mais exacerbados). “É dura! É dura e não é mole não! E pra enfiar na senhora!”

Neste exato momento chega um senhor que pretende estacionar e pergunta se o cidadão pretende aquela vaga, no que é rechaçado com um:

“Não se meta não que eu estou gritando com ela!”

O homem não resolve entrar na confusão pessoalmente e, estacionando, desaparece. Olhando para a situação, ela percebe que dentro do carro preto, existe uma mulher que olha para baixo. Sem dar uma palavra. Mais ou menos da mesma idade. Sem saber o que fazer, e com medo de sofrer uma violência física, pede desculpas.

Novamente, o cidadão diz que ela deveria ter cuidado, sendo bem eufemístico. Momento em que chega um segurança de moto e se interpõe entre o cidadão e ela (provavelmente o homem do estacionamento chamou a segurança). Ele, olhando o segurança, disse que queria registrar uma queixa que tinha sido fechado por ela na entrada do estacionamento. Seu telefone celular toca e ele diz que “a perdoa”. Sai com o carro de onde está, mas dá a volta e fica em frente ao carro dela com os faróis ligados. O segurança pergunta se ela quer alguma coisa, e ela diz que não. Comenta que ele está alterado e que possivelmente está bêbado.

Abalada, pega o carro e sai do estacionamento direto pra casa sem fazer o que pretendia. O segurança a segue até o limite do estacionamento. O cidadão não a segue, provavelmente porque se intimidou com o segurança. Vamos à análise da situação.

Primeiramente vale algumas palavras sobre o referencial ligado a uma violência.

“Uma aproximação tem sido sempre bastante para a explicação de fenômenos que servem à finalidade de viver. Somente até o ponto em que a prática da vida se vê livre de suas contradições e sua irracionalidade é que a visão teórica pode corresponder à verdade” (FROMM, E. Anatomia da destrutividade humana. Guanabara, p. 311)

O que a pessoa é, depende, também, do que ela aprende o que deve ser. Sendo assim, quando um indivíduo observa as pessoas sendo e incentivando a ser de determinada forma, a tendência é que, no mínimo, procure ser tal qual vê e ouve… Nada mais comum. No caso dos homens, especificamente, a questão fálica é extremamente significante. Particularmente no nordeste onde a masculinidade está ligada diretamente com a aptidão e disposição para os atos sexuais. Quanto mais mulheres ele tiver na vida, e em número de vezes, maior será a sua masculinidade. Por lado oposto, a castração seria o fim da sua masculinidade, e nada pareceria ser pior ao homem que isso. Ainda que morto, seria possivelmente melhor, vez que morto não precisa ostentar a sua masculinidade como forma de identidade. Para isso, Freud chegou a mostrar que a equiparação bilateral a sexualidade masculina ou feminina seria fruto de uma série de perversões associadas (Confira FREUD, S. Três ensaios sobre a sexualidade. ESB,1905/1996 , p.184).

Depois disso, vista a questão da necessidade de identidade sexual e papel sexual, para o caso, faz-se identicamente necessário que um conhecimento sobre a questão do ato falho. O ato falho, tal qual visto identicamente na teoria freudiana, é o meio pelo qual o inconsciente de manifesta através de lapsos de linguagem ou escrita, esquecimentos, entre outros. Como dito, sabemos que através desse inocentes enganos, sabemos o que se passa na mente aparentemente inacessível a qualquer pessoa, nem a ela mesma. Por isso que a questão é tão importante ao caso em tela (Confira, como ilustração, FREUD, S. Sobre a psicopatologia da vida cotidiana. ESB, 1901/1996, p. 80).

Mas e quanto à análise propriamente dita? O caso é que a falha de linguagem o homem de aparentemente cinqüenta anos revela que a sua auto-imagem não corresponde mais ao seu ideal e, no mesmo, cria uma sensação de castração que explode em agressividade. Notadamente hetero-agressividade. Lembrando a sua frase:

“A senhora está louca? Acaso a senhora não sabe que não pode passar o carro de um homem? Tá louca? Tá pensando o quê? Eu sou homem! Muito homem! E tenho p(…) mole, não é dura não!

A parte destacada indica que o problema passado pelo homem em questão está na sua disfunção sexual que abala a sua auto-imagem. Para ele, ser homem é necessariamente ter o membro sempre apto para o ato sexual. E tê-lo assim, como eternamente apto, dá uma série de prerrogativas, dentre as quais se destaca a de ter preferência em aparentemente tudo em relação às mulheres. Normalmente os homens usam elementos de substituição, e, principalmente, de ostentação, para substituir necessidades primárias eleitas como não supridas. O carro grande e preto dá uma verdadeira dimensão da questão, maximizado pelo jogo de iluminação azul diferenciado e a buzina imitando a da polícia. Todos os elementos citados são referenciais de poder, ao passo que não é assim que se sentia…

A gota d’água foi quando uma mulher ultrapassou o seu carro, que dentro de seu simbólico significa que foi sobrepujado por uma mulher. Sendo agora castrado, segundo a sua própria definição, foi o suficiente para irromper num ato de fúria. A questão é que o ato de fúria deixou escapar o motivo de uma pessoa entrar em descontrole por ato aparentemente banal, cito, quando um carro está muito abaixo da velocidade normal da via, ser ultrapassado. Revelou que a sua disfunção abala a sua estrutura de personalidade a ponto de que perca completamente a sua compostura. A ponto de realizar uma ameaça, até do ponto de vista jurídico, contra outras pessoas. Ponto importante desse caso é que a mulher que se encontrava dentro do carro ficou calada o episódio inteiro, o que pode significar que ela já banalizou o episódio. Que ele (o fato) já se tornou costumeiro e vergonhoso. As sutilezas do ato falho (FREUD, S. As sutilezas do ato falho. ESB, 1935/1996, p.232) comportam esse tipo de análise. É triste que a masculinidade seja transferida unicamente a questão da possibilidade de ereção… Como isso pode ser revertido em violência cega!

E, no mesmo, em absurdos crimes!

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8 responses

2 09 2007
J.

estou chocada. realmente, marcelino. chocada e sem reação. isso merece uma boa análise.

13 12 2008
katia lins

HISTÓRIA PURA HISTÓRIA DE QUEM NÃO TEM O QUE FAZER, EU AINDA PERCO TEMPO A LER ESSAS MERDAS.

13 12 2008
katia lins

BOBAGENS UMA GAROTINHA UNIVERSITÁRIA, SEI PELO ADESIVO DE SEU CARRO NOVO, GANHOU POR ENTRAR NA FACULDADE, ME FECHOU VIOLENTAMENTE EM UM CRUZAMENTO, ELA SAIU DO SEU NOVO CARRO ME XINGOU, ESBALDOU, ESPERNEOU, E NO FINAL DISSE QUE QUERIA TER UM PAU PRÁ ENFIAR NA MINHA $@#%¨%%, É MOLE?

15 12 2008
Freudson

Nobre Katia Lins,

O problema reside justamente nisso. No banal da violência do silêncio. Concordo que você tenha passado por momentos semelhantes ao descrito, mas isso significa que a sociedade está doente e precisamos fazer algo para que melhore. Caso contrário você não teria usado a expressão “é mole?”.
Creio que estamos no mesmo lado… E esse tipo de coisa tem que parar…

M.

9 10 2011
infortunado

Interessante, mas eu não sou assim. Para falar a verdade, eu gostaria de ser castrado, para poder viver exclusivamente nos meus negócios e não ser importunado por impulsos primitivos não realizáveis (não tenho namorada, nem esposa, nem nada).

26 12 2011
aristoteles

Totalmente preconceituoso esse texto. Aqui no Nordeste a masculinidade não se “mede” pela quantidade de mulher ou desempenho sexual. Talvez, seja o próprio Autor do texto ” o homem do estacionamento”.

26 12 2011
aristoteles

Talvez, pelo fato de não conhecer o Nordeste como deveria, ache que os Nordestinos aferem sua masculinidade por quantidade de mulheres, número de filhos ou desempenho sexual.
Lamentável.

26 12 2011
Freudson

Nobre Aristóteles,

Sendo nordestino, e com orgulho, que sou, jamais poderia ser preconceituso com o fato de ser nordestino. Poderia ser de qualquer lugar do mundo…
A questão é que este homem, que por um acaso está no Nordeste (não se sabe se ele é realmente nordestino), precise aferir sua masculinidade por esses meios…
Eu concordo contigo… É lamentável!

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