A culpa… (por Marcelino Lira)

30 03 2008

Freud 

 

“Culpa” é um dos piores sentimentos que o indivíduo pode experimentar, pois é sentimento aversivo a um ato praticado por ele mesmo. O desvalor que se atribui a si, por seus atos, não é refratado ou indicado por qualquer tipo de mecanismo simples de defesa do ego.

Por isso que toda a cultura ocidental tem a culpa como centro dos problemas religiosos e, obviamente, subjetivos.

Fornecida pelo superego (FREUD, 1923/1996, p.46-47), a consciência moral dá limite à amplitude de possibilidades que a ação humana poderia realizar. Freando a “horda primeva” através de um interdito. O interdito é elemento fundamental para a formação da personalidade ou do eu (FREUD, 1939/1996, p.93), e no mesmo, fornece o prazer que é necessário para a vida humana (FREUD, 1920/1996, p.25-26).

Fica evidente que existem alguns valores envolvidos com o tema que não podem ser negligenciados: consciência e volição.

No que diz respeito à consciência podemos abordá-la por diversos ângulos, pois diversos são os entendimentos sobre o referido objeto (“Racional” de Sócrates, “Imperativo-categorial” de Kant, “Consciência-de-si” de Hegel, “simbólica” de Jung etc), mas dois pontos são fundamentais aglutinadores: A consciência racional e a moral. Sei que o reducionismo simplista que esta pequena opinião traz, contudo se presta ao resultado que será obtido. A consciência racional é aquela que se presta a indagar questões operacionais, tais como multiplicações, conhecimento das artes, Etologia, ou qualquer conhecimento que envolva faculdades cognitivas operativas ou tendentes à operação. Como diria Aristóteles, a Medicina se destina à cura, a estratégia à vitória (Cf. ARISTÓTELES, 2002, p. 46-47), pois tais conhecimentos se destinam a um bem. A consciência moral se destina ao conhecimento do “bem-em-si” ou o “bem-Ideal”.  Fica clara a distinção das duas categorias, pois em recente história da humanidade (só como exemplo, infelizmente), duas guerras mundiais asseveraram que o desenvolvimento da técnica não implica necessariamente em um desenvolvimento e aplicação moral. Em poucas palavras, o indivíduo pode conhecer técnicas fantásticas que podem ser aplicadas para fins absolutamente imorais.

Em outro pólo temos a questão da volição. O querer humano normalmente tende para as questões que dão prazer. É inevitável que qualquer animal, incluindo o homem, procure o prazer e fuja do desprazer. Então a vontade entra como elemento central da motivação da ação.  “Ademais, o objeto é um fim, e o fim é o que não existe em vista de outra coisa, mas aquilo em que todas as outras coisas existem; de modo que, se existe um termo último desse tipo, não pode existir um processo infinito” (ARISTÓTELES, 2002a, p.77). O referido conceito vai ter a denominação de “desejo” na teoria psicanalítica.

Tendo em vista, ainda que extremamente resumido, os conceitos acima apontados sabemos que:

“A consciência permite assumir a responsabilidade dos atos praticados. Se o homem comete o mal, o julgamento justo de consciência pode continuar nele como testemunho de verdade universal do bem e ao mesmo tempo da malícia de sua escolha singular.” (CATECISMO DA IGREJA CATÓLICA, Artigo 6, §1781).

Como a responsabilidade é elemento necessário para o aparecimento da culpa, não há ser humano completo sem culpa. Ela faz parte do ser humano, pois o simbólico do permitido e do proibido sempre estão presentes em nossas ações, independente de nossa cultura. Há sempre o que desrespeitar e o sentimento de desvalor de si mesmo envolve esta escolha “errada”. Ficam excluídos, evidentemente, os casos patológicos.

Outro ponto a ser ponderado, inevitavelmente são os mecanismos de defesa do ego, aos quais protegem e acomodam o self de desconfortos externos e internos. A culpa é apenas um deles. A negação (não fui eu) ou a racionalização (eu só fiz porque..) são fortes candidatos a aparecerem quando a culpa já está instalada…

Por isso a culpa e o homem andam juntos. Inseparáveis. Na luta pelo aprimoramento pessoal e social de nossa espécie.

 

 

 

 

Confira o artigo iniciador em http://giuliettadeglispiriti.wordpress.com/2008/03/24/culpa/

Referências:

ARISTÓTELES. Ética à Nicômaco. Tradução de Edson Bini. Bauru: Edipro, 2002.

ARISTÓTELES. Metafísica. Tradução do grego de Giovanni Reale e do italiano Marcelo Perine (Edição bilíngüe grego-português). São Paulo: Loyola, 2002a. (v. 2).

CATECISMO DA IGREJA CATÓLICA. São Paulo: Loyola, 2000.   

FREUD, Sigmund. Além do princípio do prazer. In. Edição standard brasileira da obras completas de Sigmund Freud. Tradução de Jayme Salomão. Rio de Janeiro: Imago, 1996/1920, p. 13-78. (v. XVIII).

FREUD, Sigmund. Mal-estar da cultura. In. Edição standard brasileira da obras completas de Sigmund Freud. Tradução de Jayme Salomão. Rio de Janeiro: Imago, 1996/1939, p.67-150. (v. XXI).

FREUD, Sigmund. O Ego e o Id. In. Edição standard brasileira da obras completas de Sigmund Freud. Tradução de Jayme Salomão. Rio de Janeiro: Imago, 1996/1923, p.15-82. (v. XIX).

 

 

 

 

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One response

18 04 2008
Dogival Waltrudes Deuzeman

Falar de culpa não é uma tarefa simples, todavia verifica-se a felicidade do autor quando da não atribuição a determinada causa, mas a própria integridade do ser humano wur, superando o eterno confronto entre o bem e o mal, Maniqueísta.

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