Freud, um ser pessimista? (por Marcelino Lira).

19 06 2008

Curioso como grandes mentes normalmente são atingidas pelas envenenadas agulhas do pessimismo.

 

Em “Por que a guerra?” Chega a propor a Albert Einstein algo impressionante:

 

“Por que o senhor, eu e tantas outras pessoas nos revoltamos tão violentamente contra a guerra? Por que não a aceitamos como mais uma das muitas calamidades da vida? Afinal, parece ser coisa muito natural , parece ter uma base biológica e ser muito difícil evitar na prática.”

FREUD, Sigmund. Por que a guerra? ESB. 1996, p. 207. (v. XXII).

 

Será que a personalidade de Freud era de todo amargo?

Será que a pobreza que viveu na infância e que o perseguiu em forma fantasmática por toda vida o fez assim?

Será que os desapontamentos com a I guerra mundial o tornou assim?

Será que foi o anti-semitismo?

Será que foi a bateria de oposições às suas idéias?

Será que foi a sua doença?

 

Certamente ele não era de todo amargo, e até, sob um certo grau estrutural, otimista.

Mesmo admitindo que a agressividade como elemento programado biologicamente, admitia também a possibilidade que a cultura poderia ser elemento inibidor.

Mas os exemplos individuais normalmente são mais impactantes.

Conheceu a jovem escritora Lou Andréas (ainda assim), com quem manteve intensa correspondência e amizade. Será que essas palavras são de um real pessimista?

 

“A senhora estraga pessoas como eu, que se sentem continuamente tentadas a lastimar-se da humanidade, com o seu grau de compreensão que ultrapassa o que foi dito.”

 

Freud e Andreas-Salomé: Correspondências completas. Tradução de Dora Flacksman. Rio de Janeiro: Imago, 1975, p. 25. (Coleção Psicologia Psicanalítica).

 

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20 06 2008
Laura Maciel Freire de Azevedo

Machado de Assim, em sua (impressionante) obra “Quincas Borba”, traz
uma expressão que se tornou extremamente famosa: “Ao vencedor, as
batatas”. Mas não é a expressão o importante aqui. Ela é apenas a
conseqüência de um raciocínio. Este é o que realmente importa.
Para Quincas Borba, o Filósofo mas famoso da literatura brasileira, a
guerra não só era necessária, mas a única maneira de trazer a paz. E
então ele traz um exemplo: há um imenso campo de batatas e duas
tribos. A batatas existentes no campo só podem alimentar uma das duas.
Se dividirem, ambas perderam membros. Portanto, a solidariedade seria
a perda para os dois lados. Enquanto que a guerra e a eliminação de
uma delas é a paz e a sobrevivência.

Seriam ambos pessimistas? Freud e Quincas Borba (Machado de Assis)?

Talvez com a “democracia” (aqui entendida a vontade da maioria) e não
com as pessoas em si.

Certo, a humanidade é o conjunto delas, mas não é a vontade delas. Se
a vontade da maioria é a guerra, o que fará a minoria? Arriscará a
vida, como Joana D’Arc fez? Mas a França não ganhou porque ela lutou
sozinha: ela convenceu a maioria.

Mas há pessoas que são capazes de violar a própria vontade da sociedade. Há pessoas que são capazes de persistir acreditando em bons sentimentos. E Freud descobriu em sua amiga Lou alguém que transcendia a mesquinhez humana.

Graças a Deus, eu não sei o que é viver em guerra declarada. Talvez se eu fosse acostumada a conviver com um caos mundial, talvez duvidasse da bondade humana. Hitler, por exemplo, tinha formato humano…

O fato de Freud ter vivido n época em que viveu torna ainda mais bonito os bons sentimentos que ele tinha por sua amiga Lou. Talvez não fosse muito do jeito dele fazer declarações com mais arroubos, com demonstrações mais intensas de sentimento.
Mas aposto todas as minhas fichas que Lou Salomé sorriu ao ler o trecho final deste artigo… E seus olhos devem ter brilhado. Se acreditava em Deus, bendisse a Ele ter como amigo alguém que, por mais que criticassem, para ela era um ser especial, que ela admirava e gostava muito!!!

Lindo o que Freud escreveu pra ela. Lindo!…

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