O amor ao cão. (Por Marcelino Lira)

13 07 2008

 

Em recente conversa com uma pessoa, revelou-se um conteúdo sinceramente curioso sobre o nosso tempo. O amor ao cão.

Porque algumas pessoas preferem amar animais a ter filhos?

Dogbert

Dogbert

 

 

 

A resposta não é tão simplória quanto parece. Porque é reflexo  da realidade na qual estamos imersos: O culto ao “eu”. 

Em poucas… É uma questão de equilíbrio. Não há dúvida que um pouco de atenção ao eu é fundamental, pois a alimentação, cuidado, conservação de si mesmo é essencial para a continuidade do corpo e da alma, mas a política dos excessos que estamos divulgando através da cultura de massas é simplesmente inacreditável.

Cultuamos tanto o “eu” que perdemos o referencial principal dele, qual seja o “Outro”.

É através das diferenças existentes no Outro, que é igual a mim, que eu posso me enxergar de maneira clara.

Acontece que se ver pode ter efeitos complicados.

O Outro revela a face cruel que os egocêntricos têm. O efeito do espelho que um ser humano tem sobre o outro pode ser revelador ou avassalador.

Obviamente estamos desconsiderando aqui alguns fatores da história individual que fazem real diferença em casos concretos.

 

Mas… 

Por que correr o risco?

Pode-se viver de falsas sensações de companheirismo, amizade e confiança.

Compra-se um cachorro.

Um ser que você pode abandonar aos empregados, e quando voltar ele fará “festinha”.

Aquele que não é capaz de identificar e apontar “humanamente” a sua falta de caráter.

O que certamente voltará se você espancá-lo porque não obteve o que queria, mesmo que o animal não tenha culpa nenhuma, ao mínimo aceno.

Cães dificilmente são antepositores!!!

Dilbert e dogbert

Dilbert e dogbert

 

Viver as suas vidas vazias com o vazio de sentimentos.

Pseudo-emoções em propósitos inumanos.

Tempos contemporâneos.

Crueldade e requinte para o eu.

Ainda que todo sentimento não só afete o outro, mas também o “eu”.

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12 responses

14 07 2008
Laura Maciel Freire de Azevedo

Optar conscientemente por um cachorro em detrimento de filhos parece mesmo um pouco lamentável…
Eles são criaturas adoráveis, eles diminuem a sensação de solidão, mas não têm a possibilidade de conversar. São apenas para enganar a mente que, num lugar sozinho, vê outra coisa se mexendo que não é você mesmo. Ele não tem a possibilidade de gostar de você pelo que você é. Ele gosta de você por um interesse em proteção e alimento, e isso não é culpa dele. Ele vai protegê-lo, porque assim ele protege a ele mesmo.

Ter um cachorro ao invés de filhos, se, evidentemente, essa atitude não seja falta de opção ante os casos concretos, parece uma tentativa última de fugir da solidão. Um pouco do culto ao “Eu”? Parece sim. A possibilidade de etr alguém que não vai te contradizer, não vai te dizer “não”, não vai fazer cobranças…

Mas nunca vai dizer “eu te amo”.

14 07 2008
Laura Maciel Freire de Azevedo

Complementando…

Estranhamente, a opção em não ter filhos (à exceção dos casos naturais) não seja tanto egoísmo assim (perdão se entendi errado).

Se a pessoa tem convicção da solidão, se a pessoa simplesmente quer estar só, ou se ela simplesmente chegou a uma estranha conclusão de que a solidão é inevitável (por motivos os mais variados; a conclusão – decisão? – em si é que causa estranheza aos outros), ter um cachorro ao invés de filhos (adotados ou naturais) parece ser uma opção pensando nos próprios filhos.

Explico.

Vai ver por influência da minha monografia, é tão desagradável uma vida sem pai nem mãe!…
Acho demasiadamente admirável a adoção, mas ela tem a desvantagem quando é feita por apenas um pai ou uma mãe: a criança vai precisar do outro (pai ou mãe). E uma pessoa que já era só e adota um filho, ou mais de um, dificilmente vai encontrar alguém que queria relacionar-se com alguém que já tenha filhos. Não é impossível, apenas é mais difícil que para uma pessoa que não os tenha. Até a aceitação dos filhos em dividir o pai ou a mãe com um outro companheiro é algo complicado para o pai/mãe e para o/a companheiro/a.

Então se a pessoa escolhe não adotar uma criança, mas um cachorro, estaria dando a essa criança a possibilidade de ser adotada por uma família “mais cheia”…

Ah, meu Deus… Ou então por alguém que decida ter um filho apesar de não ter companheiro/a nenhum/a !!!!

É… acabo de prejudicar tudo o que escrevi…

Então fica-se numa decisão: criar sozinho alguém que você tem consciência que precisará da companhia de um pai ou mãe que você não pode oferecer (porque você já é um dos pólos) ou viver com um cachorro?

Meu Deus!… Estou sentindo coisas estranhas… Ai, a minh’alma!!!

17 07 2008
Catarina Borba

Deve-se observar que nem sempre a opção de criar um animal é uma atitude que visa, de forma egocêntrica, possuir eterna atenção do bichano.
Se for para levar as intenções aos extremos, é preciso observar que por egocentrismo, muitos indivíduos optam pela paternidade/maternidade, achando que possuem capacidade para tal feito, sem levar em consideração o fato de que criar um indivíduo é uma atividade extremamente complexa, onde, de acordo com Freud, se existir deficiência em alguma das fases e complexos necessários para o crescimento de um ser humano, logo o mesmo poderá apresentar futuramente algum transtorno, causado pela ausência de atenção e capacidade dos pais e a inversamente proporcional intensa presença de egoísmo e presunção destes, que acreditam serem capazes de educar o mais complexo ser que habita a terra.
Então, qual é o problema em admitir não possuir faculdades suficientes para criar um futuro societário e não abrindo mão dos sentimentos humanos de amor e compaixão, criar, e por que não, educar, um animal?
Dessa forma, obteremos as mais virtuosas intenções de humildade (ao aceitar a incapacidade de desvendar a complexidade do ser humano) e de caridade (quando se oferece amor para um outro ser, ajudando até na sua evolução terrena).

6 10 2008
Laura Maciel Freire de Azevedo

Disse Jesus (está na Bíblia) que quando muito te é dado, muito te será cobrado.

Se DEUS (que tudo sabe e tudo vê) nos deu a capacidade de sermos pais, como podemos julgar-nos impróprios a sê-lo? Queremos saber mais que Deus? Se o ser humano pode apenas dar à luz outros seres humanos e não cachorros, é porque o homem (apesar de seus defeitos) é capaz de cuidar de uma criança!

CRIA-SE cachorros. CUIDA-SE de crianças. Para criar, jogo água e comida, dou um teto e, de quando em vez, um carinho. Para cuidar, é preciso dedicação, atenção, respeito ao livre arbítrio do outro. E para este último é preciso coragem: porque interagir com outro ser humano requer, como disse o texto ora comentado, descobrir um alguém diferente (que saiu de você!) e descobrir outro eu.

Não é fácil conhecer outras pessoas, principalmente quando estamos conhecendo aquela que vemos sempre no espelho.
“Toda mudança traz a sensação de afronta ao que é certo, havendo uma tendência de rejeitar o novo por considerá-lo uma quebra do que sempre foi tido como correto. Assim, tudo o que se opõe ao que está posto parece contrariar o que é verdadeiro e bom. A tendência de repetir o estabelecido decorre não só do medo do desconhecido, mas também da dificuldade de se lidar com o diferente, o incomum.” (“A Ética do Afeto”, Maria Berenice Dias, Desembargadora do TJRS)

Educar uma criança é uma atividade indubitavelmente complexa. E ninguém nasce sabendo. Quem se “atreve” a ser pai está desafiando as “leis” da mente que, por mais estudioso que seja, ninguém conhece.
Isso parece arrogância? Pretensão?
Então nossos pais foram arrogantes?
Ou cumpriram a Bíblia: “Crescei e multiplicai-vos”?
Se não fosse essa petulância deles, em arriscar colocar uma criança no mundo e tentar transformá-la em um ser sociável, não estaríamos aqui. Não teríamos a vida. Não teríamos tido, certamente, nenhum dos nossos momentos ruins; em compensação, jamais teríamos conhecido a quem amamos: nem eles mesmos.

Falhas na criação? Deus, que é PERFEITO, criou um ser imperfeito: o homem. Por que achar que vamos acertar sempre?

Data venia, parece-me que admitir não poder se um bom pai ou uma mãe é negar a própria natureza, porque até mesmo os seres assexuados se reproduzem: alguns seres lançam pseudópodos (que saem deles mesmos, sem participação alguma de outro ser). E esse pseudópodo pode sair falho. E ainda assim eles continuam se multiplicando. Irresponsáveis?

Caridade maior é dar a alguém a chance de ser alguém. De ser um humano e não uma coisa. Inteligente aquela propaganda em que um menino de rua coloca na cabeça uma máscara de cachorro e senta no meio-fio. Porque cachorros têm esmolas. Crianças, não…

Tenho alguns defeitos, meus pais erraram algumas vezes. Mas agradeço a Deus e a eles a oportunidade de ter vida, de poder ter estudado, de ter sensibilidade suficiente para reconhecer quando eles estiveram certos e quando o certo estava comigo, de ter educação e um mínimo de cultura para escrever tudo isso.

14 12 2008
Ericka Costa

Felizes os comentários anteriores. Mas pergunto: quem de vocês possui filhos ou cachorros? Um ou outro? Ou os 2 juntos? Gostaria realmente de uma visão baseada na vivência. Conclusões de quem dispõe das citadas companhias.

Ter filho é uma coisa única. A emoção de passar princípios e experiências… e a expectativa de como irão reagir… a possibilidade de um companheiro(a) para o resto da vida. Claro que cada um com a sua vida. De fato vou perder meu tempo se for descrever. Só sabe quem tem e quem nasceu pra ter. Digo isso porque muitos tem mas, por não terem a menor vocação, não valoram ou sequer são capazes de se emocionar. Apenas procriam.

O hábito de criar animais surgiu pela necessidade. Aos poucos surgiram outras motivações. Creio que o amor foi uma das últimas. Os que comparam sentimentos entre animais e pessoas, me desculpem, mas são pobres de princípios, convicções, sentimentos. Penso que não sabem sequer o que é amar de verdade, pois me fazem pensar que ao menos se amam. Amores não se confundem. Amor de homem e mulher, amor de mãe, amor fraterno, amor de amigo, e…. amor de bicho. Os que preferem um animal qualquer a ter filhos de fato cultuam o “eu”. É incontestável. Mas lembremos que há os que preferem não ter filhos por simples convicção e quem tem um cachorro. Isso é bem diferente. Os primeiros são dignos de pena. Os segundos devemos louvar, pois como dito, ter filho não é somente procriar.

Pois bem. Ter filhos é uma escolha pro resto da vida que exige exemplar responsabilidade, paciência, disposição e muito amor. É a maior entrega da vida de uma pessoa. Ter um animal é um hobby. Ele te diverte, te faz companhia, te agrada e, como não poderia deixar de ser, você se apega. Não confundemos os sentimentos!

Ah! Só pra lembrar, tenho uma filha e uma gata! rsrsrsrssss

20 10 2010
Dersú

Ai sim

19 05 2009
Philipe

Quanta bobeira.
Eu gosto mais de animal que pessoas, cada um na sua.
Já tem gente demais no mundo… e esse é o problema!
Filhos? Pra que!? Prefiro curtir a vida!

13 09 2010
Petrus

Que texto mais infeliz. Esvaziar o mérito da relação entre humanas e animais e aplicar uma explicação determenista para explicar porque algumas pessoas preferem ter animais a filhos. Desconsidera muitos fatores sociais e políticos,quais sejam: diminuição da taxa de fecundidade, encarecimento dos custos de constituir familia, maior entrada da mulher no mercado de trabalho, índice de escolaridade etc. Reduz tudo a uma mera exigência narcísica de fugir da “cruel” realidade. E ignoram motivos pragmáticos. Ignoram, inclusive, que é perfeitamente possível estabelecer laços profundos de companheirismo e amizade com um cão. Talvez sequer tenha percebido que se há um Outro nessa relação, esse Outro é o animal: aquele de quem esvaziamos o sentido e a dignidade como se fossemos seres superiores, nos valendo deles em seus motivos mais utilitarios: comer, servir a guarda, fazer o ‘ritual religioso’. Enfim: este texto é extremamente antropocêntrico e de mal-gosto! Só sendo muito leigo ou muito senso comum, ou achar que pq tem base lacaniana quer dizer alguma coisa!

14 09 2010
Freudson

Nobre Petrus,

Entendo a sua indignação inicial, mas o texto tem uma ressalva.
Atente ao trecho:

“Obviamente estamos desconsiderando aqui alguns fatores da história individual que fazem real diferença em casos concretos.”

Por isso que coloquei destacado e em itálico.
De qualquer forma fico feliz que tenha mobilizado tanto o/ um leitor, bem como as suas relações com o cão. Ainda mais quando a questão é uma metáfora das relações humanas e animais…

20 10 2010
Dersú

Vejo muito excelentes pais com filhos problema, disturbios de carater, personalidade e muitos outros, geralmente reflexos da realidade contemporânea, fragmentada e de valores deturpados.

Nunca vi um bom “dono” ou melhor Senhor de cães em cujo a matilha apresente qualquer desses problemas, pois os valores que reconhecemos nestes, lealdade, dignidade, cumplicidade e cooperatividade são em verdade caracteristicas genéticas que auxiliam na sobrevivencia da equipe. E SEMPRE se comportam dessa maneira desde que corretamente instruidos.

já crianças… muitas variaveis…

Nunca, Nunca um cão deve tomar o lugar de um filho, um cão é um leal servo e amigo, e deve ter consciencia e orgulho de sua posição no grupo, só assim será um cão equilibrado, entretanto a opção de ter ou não filhos não deve ter relaçõa com a opção de ter um cão.

Se gosta de trocar fraldas, aturar choro, manha, pirraça, problemas na escola e está conscientemente disposto a encarar os possiveis problemas gerados pela sociedade na mente de um adolescente, vá em frente, seu cão não vai se opor à vinda desse membro de conveniencia duvidosa.

26 12 2012
Leticia

É incrível como os procriadores não perdoam…ofende-lhes profundamente que alguém opte por não ter filhos, e, caso ainda tenha um animal, aí sim a ofensa é intolerável. E recorrem a uma coisa muito feia chamada especismo para desrespeitar, desqualificar, a igualmente “única” relação de um Homem com um Animal. Ora, meus…cada um na sua. Tenham seus filhos à vontade, povoem a Terra com cada vez mais gente carente de valores e oportunidades, para poluir e depredar o planeta. Mas deixem as pessoas e seus animais em paz. Estas, curiosamente, só se defendem, não precisam atacar ninguém. Às vezes me passa uma imagem na cabeça…uma piscina enregelante e um pai ou mãe dentro, forçando um sorriso e convidando: “deixem seus animais para trás e venham, está uma delícia”.

31 12 2012
Freudson

Vendo os comentários fico feliz de ter atingido o objetivo do texto:
Discutir a relação existente entre as pessoas, e delas com os animais.
O vínculo que nos dispomos a ter com o mundo que não é o nosso narcisismo…
Fora disso, percebemos que a nossa disponibilidade para o “externo” pode ser a mesma, seja o “objeto” de amor uma pessoa ou um animal.
Fenômenos como o “ficar”, não é uma espécie de “uso” do outro? Sem vínculos ou relação?
Fico feliz, mais uma vez, que minhas palavras tenham provocado a discussão.

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