Intermitências do ódio (Marcelino Lira).

29 09 2009

Lebrun

As perguntas de Lebrun para iniciar as suas assertivas são extremamente pertinentes…

“Por que nos estendemos sobre tudo isso para falar do ódio? Primeiro, porque talvez seja útil sabermos por que ele nos habita, por que ele pode emergir em nós a cada instante, por que ele nos segue como nossa sombra?”(1)

Há quem acredite que nossas personalidades são esvoaçantes plumas angelicais, alimentadas unicamente por sua força vital essencial. Nisso dispensam a concretude de fatos evidentes sobre nossas potencialidades enquanto espécie.

O sadismo, por exemplo, pode ser a canalização mal direcionada de uma energia pulsional constante em todos os humanos. Alguns desvios no decorrer de sua vida e o quadro está implantado.

“O sadismo não tem, praticamente, nenhum objeto; não é “trivial”, mas “devocional”. É a transformação da impotência na experiência da onipotência, é a religião dos aleijados psíquicos.” (2).

O ódio é uma potencialidade que pode explodir a qualquer momento em qualquer pessoa. Por essa razão que entre os sete pecados capitais existe a “ira”…

É o “aleijo” que tem como parâmetro o “normal” ou o “normal” é que tem como parâmetro o “aleijo”? Ao denotativo e conotativo eu tenho a dúvida…

Referências.

(1) LEBRUN, Jean-Pierre. O futuro do ódio. Tradução de João F. C. Corrêa. Porto Alegre: CMC, 2008. p. 24.

(2) FROMM, Erich. A anatomia da destrutividade humana. Tradução de Marcos A. M. Matos. Rio de Janeiro: Guanabara, 1987. p. 389.

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30 09 2009
Laura Freire

o ódio… que difere da maldade, por aquele ser sentimento, que brota dos instintos instigados pelo desprazer e esta ser fruto da cultura (afinal, nem tudo que parece ruim para uns o é para outros…)… embora estejam tão interligados – e pergunto-me se não são mesmo condição sine qua non um do outro…

As palavras de Lebrun são excelentes… Se não por gosto, é extremamente útil ler sobre o ódio – no mínimo, é uma forma de autodefesa (quanto mais conheço meu inimigo – mesmo que este seja eu mesmo -, menos indefeso fico diante dele, pois que ele já se me torna previsível)

A primeira conclusão a que se chega é que o aleijo tem por parâmetro o normal, já que quem estuda não se julga (eu creio) no próprio objeto de estudo. Mesmo que exista quem creia que todos temos o sentimento de ódio dentro de nós (sinceramente, desconheço quem não o tenha) e, nesse diapasão, “ódio” possa ser considerado inerente à natureza humana e, portanto, “normal”, o sadismo vai mais além do ódio. Não é o puro sentimento de raiva profunda, mas a única forma de prazer é observar o outro sofrendo as consequências do sentimento. Algumas pessoas sentem ódio e fazem o outro sofrer por isso por inveja (“eu sofro, ele sofre também” – não necessariamente pela mesma causa), por vingança (“eu sofri, você vai sofrer junto!” – aqui é a mesma causa).

Mas apesar de ser leiga no assunto, creio que o sadismo tem um prazer bem diferente da simples vingança. Talvez o prazer que esta traga seja menor em relação ao sadismo e talvez menos duradouro, porque ele é mais momentâneo. E também porque a vingança é direcionada a objetos determinados e sempre tem uma finalidade, que não o mero sofrimento (“quero que ele sofra para que saiba que não se deve fazer isso comigo!”).
Mas se alguém sente prazer em me torturar pelo simples fato de que eu estou spfrendo, por que ele pararia? Ele se compraz com minha dilaceração emocional, não lhe basta vingar-se (ou talvez ele nem precise deste impulso). Por que deixaria de fazer? E por que só faria comigo? E por que de uma só maneira?

Quando a gente tem um prato preferido, ou faz uma receita de que gosta muito, a gente vai querer repetir, vai querer provar de várias maneiras diferentes (no jantar, no almoço, no café-da-manhã, vai levar quem a gente gosta pra experimentar também). Por que não diversificar e divulgar o prazer de assistir ao sofrimento alheio?

Meu voto é que o aleijo é mesmo aleijo e tem por parâmetro o nível “normal” da manifestação de ódia da maioria (ok, lembrei-me do nazismo. Vamos levar por maioria a população mundial e não a alemã, ok?).

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