Nem me chame para cair na folia (Por Carol Almeida)

14 02 2010


por Carol Almeida

O Carnaval talvez seja a única ‘entidade’ festiva brasileira que movimenta um mês inteiro de comoção popular. No caso de Pernambuco, onde ele é quase uma vontade unânime, costuma-se viver em função da embriaguez da folia. As lojas fecham, as boates tiram férias, as peças encerram temporada e muitos restaurantes aproveitam o momento para descansar. Enquanto isso, as pessoas que justificam a classificação ‘quase unânime’, ou seja, aqueles ‘chatos’ de plantão que não gostam de Carnaval nem pela TV, trancam a porta de casa e sobrevivem por uma semana do estoque da geladeira e de boas horas de sono.

As opções não são muitas, mas para quem pretende tirar alguns dias de folga antes do começo de mais um ano de trabalho (ano que no Brasil parece só se contar mesmo depois da folia), existe algo além da vida vegetativa para o MSC-PV (Movimento dos Sem-Carnaval-Por Favor). Fitas de vídeo, cinema, boliche, Game Station, livros: o horóscopo do não-folião indica um período mais calmo, livre das multidões e dos engarrafamentos. Portanto, a ordem é relaxar e aproveitar este pequeno leque de opções que a Região Metropolitana do Recife oferece para quem não conseguiu fugir da cidade, mas com certeza quer fugir do Carnaval.

E como quase todos os pólos de entretenimento da cidade param de funcionar nesta época (e os que abrem servem como apoio ao Carnaval), a solução é arriscar o inevitável: cinema. Como a época é de expectativa para o Oscar, existem vários possíveis premiados em cartaz . No Shopping Recife, onde, além dos cinemas, há o Game Station e o boliche, o solitário da folia pode gastar sem remorsos o dinheiro que ele economizou nos kits da semana pré-carnavalesca, nas fantasias, confetes, serpentinas e no pacote de bebidas alcoólicas. Uma hora de boliche e quatro partidas de Dynamo Hockey com certeza devem sair mais em conta que todos os gastos de Carnaval.

Mas movimento intenso, mesmo distante da folia, somente nas locadoras de vídeo. Nesta época, é comum se montar promoções para atrair o cliente que tem horror a Carnaval e não quer nem pensar em assistir às fantasias mais originais pela TV. “No ano passado, a locadora ficou praticamente vazia de fitas. Até os filmes mais antigos, daqueles que quase ninguém pega, saíram das prateleiras”, lembra Cláudia Cabral, gerente da Lok Vídeo do Espinheiro. “Semana passada, já tinha gente aqui reservando de 10 a 15 fitas”, completa Cláudia.

Ao contrário dos tendenciosos raciocínios de causalidade filhos = folia; pais = avessos à folia, a família de Elaine Santos, 23 anos, é exatamente o oposto desta convenção. A estudante e seu irmão Eduardo, 20, repetem este ano um ritual de transformação do apartamento onde moram em casulo. Enquanto seus pais saem para brincar e cantar o frevo nas ruas, eles preferem colaborar com a renda das locadoras de vídeo mais próximas e com as gorjetas dos deliveries de pizza do bairro. “A gente já costuma assistir a filmes com uma certa freqüência, mas no Carnaval, a quantidade de fitas dobra”, calcula Elaine.

Também fã de um bom filme, o advogado Sérgio Vieira, 23, adotou uma técnica diferente neste Carnaval. “Deixei de assistir a todas as últimas estréias do cinema e acumulei minha cota de novidades para esta semana”, garante ele. Assim como uma legião de pessoas que não gosta da folia, Sérgio deverá passar boa parte desses próximos dias com os pés fincados nos cinemas Multiplex do Shopping Tacaruna. Para onde ele, aliás, deve ir com alguns minutos de antecedência, devido ao possível congestionamento de carros na Avenida Agamenon Magalhães, que dá acesso a Olinda.

Cansado de ter que lidar com a apatia dos outros cantos da cidades que não sejam focos de Carnaval, o economista Laio Toledo, 30, bem que tentou, mas não conseguiu achar um pacote de pousada em Porto de Galinhas por menos de R$ 600. Para economizar este dinheiro, ele optou por uma pousada em Candeias. Gastando exatamente a metade do que iria gastar em Porto, Laio conseguiu uma estada de sete dias, a partir do meio-dia de hoje até o meio-dia da quarta-feira de cinzas. “A vantagem é que eu vou estar longe dos focos de folia e, ainda assim, perto da cidade. Caso queira ir ao cinema ou encontrar alguns amigos, não vou precisar gastar muito tempo dirigindo”, raciocina.

Como já deu para perceber, a opção mais viável em dias de Carnaval são os shoppings. Mesmo sem estar funcionando normalmente, eles atraem jovens devido aos cinemas e centros de diversão. O estudante Alexandre Amorim e sua namorada Leila Simonin, ambos de 18 anos, passam este ano o segundo Carnaval juntos e, por tabela, o segundo Carnaval longe da folia e perto do shopping. “Se eu tivesse dinheiro, viajava, mas como não dá, o jeito é ficar passeando entre as lojas e quem sabe jogar alguma coisa”, lamenta ele, que deve arriscar algumas corridas no Game Station com os amigos. Turma, aliás, que também detesta o Carnaval.

Ao contrário daqueles que ainda tentarão dar uma escapulida de casa nesses dias, o estudante Mário Jorge Júnior, 28, deve fazer um programa caseiro de hoje até a próxima quarta. Segundo ele, essa é a grande oportunidade que surge para receber visitas em casa, lembrar dos parentes esquecidos da agenda telefônica e finalmente descansar a cabeça com algumas fitas de vídeo que ninguém é de ferro. “O máximo que eu posso fazer para acompanhar a folia é assistir uma coisa e outra pela TV, e só”, assegura ele. Também no pacote casa-casulo, o estudante de mestrado Marcelino Lira, 24, deve aproveitar as ‘férias’ temporárias para colocar suas leituras em dia. “Neste Carnaval, seremos eu e os livros”, afirma o mestrando.

Para a massa minoritária de não-foliões, a dica é uma só: não entrar em paranóia com o Carnaval. Sim, porque queira ou não, ele estará espalhado por todos os cantos, seja na TV, na decoração da cidade, ou mesmo no vazio dos corredores dos shoppings em pleno domingo.

Jornal do Commercio
Recife – 03.03.2000
Sexta-feira

Coletado em:

http://www2.uol.com.br/JC/_2000/0503/em0303h.htm

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