Hiperfagia associada a outras perturbações psicológicas (Marcelino Lira)

2 04 2010


Botero, F.

Segundo o Código internacional de doenças (CID-10), classificado sob a sigla F50.4, a

“hiperfagia que tenha levado à obesidade como reação a eventos angustiantes deve ser codificada aqui. Perdas, acidentes, operações cirúrgicas e eventos emocionalmente angustiantes podem ser seguidos por uma ‘obesidade reativa’, especialmente em pacientes predispostos a ganho de peso.” (ORGANIZAÇÃO MUNDIAL DE SAÚDE, 2007. p.176).

A característica da hiperfagia associada a outras perturbações psicológicas está na sua relação mais direta com o efeito estressante. O ato de comer surge como alívio de tensão que existe para o indivíduo, e desfocam a atenção do evento angustiante para uma satisfação de origem primeva, tão bem vista na Psicanálise. O DSM-IV não classifica a hiperfagia associada a outras perturbações psicológicas em um diagnóstico específico, senão aos “transtornos alimentares sem especificação”.

A hiperfagia, por ser diagnóstico subsidiário, exclui outros transtornos que provocam a hiperfagia sob o mesmo título ou não. Com efeito, diferencia-se da anorexia com a característica perda de peso induzida pelo próprio indivíduo, e distorção de imagem corporal; ou da bulimia nervosa onde o próprio indivíduo tenta neutralizar os efeitos de engordar através de elementos purgativos, ou pavor mórbido de engordar, todos vistos anteriormente.

No mesmo, excluem, evidentemente, o transtorno de pica, dificuldades e descontrole alimentar, anorexia ou perda de apetite SOE e a própria obesidade.

“O aumento de peso é mais pronunciado em ambos os sexos entre as idades de 25 a 44 anos. Durante essa fase, os homens aumentam em média 4kg, e as mulheres 7kg” (SANDOCK, 2007, p. 801). Esses dados apontam apenas a tendência para o aumento de peso, desconsiderando os fatores propiciadores do fenômeno. Além de fatores orgânicos, elementos de personalidade, comportamento e sociais influenciam significativamente.

O primeiro deles, evidentemente, é a predisposição constitucional do indivíduo para ganhar peso. Sujeitos com grande aproveitamento do tubo digestivo tendem, obviamente, a ser mais susceptível ao ganho de peso, pois a mínima quantidade de alimento causa o aumento da massa corporal. Vários fatores influenciam para essa constituição, desde produção ou ausência de produção de hormônios (por exemplo a gonadotropina) até um possível número maior de microvilosidades. No mesmo, falhas nos mecanismos de saciedade podem provocar a hiperfagia sem que o organismo consiga perceber que a quantidade de alimento foi suficiente.

Os fatores ambientais não podem ser negligenciados, pois configuram a presença ou não de comida, fatores desencadeadores de ansiedade e stress, e, nunca esquecendo, de elementos valorativos com os quais a personalidade e comportamento são formados.

Para o tratamento do transtorno, a reeducação alimentar tem sido apontada como instrumento fundamental para percepção que o ato da alimentação pode ser monitorado. Principalmente se levado em consideração que comer é ato voluntário, ainda que a sensação de fome não seja. A cognição e comportamentalismo de uma planilha alimentar mostram efeitos significativos.  (Cf. MEYER, 2008, p. 430).

Trabalhar fatores vulnerantes e precipitadores do comportamento é outro campo de abordagem, na medida em que de posse do conhecimento, o indivíduo pode não só reordenar seus hábitos alimentares, mas também prevenir recaídas.

O uso de antidepressivos (tricíclicos e ISRS) tem demonstrado eficiência com os transtornos alimentares, principalmente se associados à psicoterapia. (SALZANO & CORDAS, 2004, p.192).

Exercícios físicos são recomendados para o dispêndio calórico, associados ao fato da liberação de substâncias naturais que produz uma sensação de prazer que não estão na comida, quebrando o elemento compensatório da comida. Aumenta, em conseqüência, a estima de si, tão alquebrada em todos os transtornos alimentares.

Evidente que uma equipe interdisciplinar deve agir de forma coesa para o tratamento do paciente, composta, no mínimo, de psicólogo, nutricionista e médico. Em alguns casos específicos, como peso acima do dobro normal, a obesidade do paciente pode pô-lo em risco de morte e o internamento pode ser necessário para evitar parada cardiorrespiratória.

As co-morbidades podem estar associadas e devem ser tratadas concomitantemente, uma vez que, por exemplo, 65% dos casos de anorexia nervosa estão associadas à depressão.

Boas experiências têm sido relatadas com a experiência do “hospital-dia”, realizados no Hospital das Clínicas da USP, com equipes de lúdicas, psicológicas, psiquiátricas com apoio aos pacientes e aos parentes (SALZANO & CORDAS, 2003, p. 93).

Bibliografia

DALGALARRONDO, Paulo. Psicopatologia e semiologia dos transtornos mentais. Porto Alegre: Artmed, 2008.

MEYER, Elisabeth. Reeducação alimentar. In. KNAPP, Paulo e Cols. Terapia cognitivo-comportamental na prática psiquiátrica. Porto Alegre: Artmed. 2008.

ORGANIZAÇÃO MUNDIAL DE SAÚDE. Classificação de transtornos mentais e de comportamento da CID-10. Tradução de Dorgival Caetano. Porto alegre: Artmed. 2007.

SALZANO, Fábio Tapia & CORDAS, Táki Athanássios. Hospital-dia (HD) para transtornos alimentares: revisão de literatura e primeiras impressões do HD do ambulatório de bulimia e transtornos alimentares do IPqHCCMUSP (AMBULIM). In. Revista de psiquiatria clínica. 30 (3); 86-94, 2003.

SALZANO, Fábio Tapia & CORDAS, Táki Athanássios. Tratamento farmacológico de transtornos alimentares. In. Revista de psiquiatria clínica. 31 (4); 188-194, 2004.

SANDOCK, Benjamin James. Compêndio de psiquiatria: ciências do comportamento e psiquiatria clínica. Tradução de Cláudia Dorneles et al. Porto Alegre: Artmed. 2007.

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One response

3 11 2012
Mário Renato Prates

Excelente.

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