“Boto na conta de quem?” Incidente no Presídio do Curado. (Marcelino Lira).

22 01 2015


Mais uma vez o Brasil acorda com notícias que está ocorrendo mais uma “rebelião” em presídios. Ela é tão frequente que parece difícil não ter a impressão que a manchete não é da semana passada, ou da anterior. Nas redes sociais os extremistas, dos dois lados, se inflamam. Os “pró-polícia” dizendo que os “direitos humanos” não deixam a polícia “trabalhar” e vivem “dando moleza pra vagabundo que tinha mais é que ir pra vala” para não atrapalhar a vida do “cidadão de bem”. Do outro lado os “contra-polícia” dizendo que tudo isso é culpa unicamente da própria estrutura repressiva, onde “todos” os policiais e agentes penitenciários descumprem sistematicamente a completude dos direitos fundamentais. Não demora a aparecer epítetos depreciativos como “coxinhas”, “empadinha”, e até, curiosamente, “direitos humanos” passa a ser menoscabado como “direitos dos manos”. Em meio a tudo isso, parentes de presidiários desesperados querendo saber notícias de seus entes, da mesma forma que os parentes dos agentes do Estado também sentem na pele a mesma sensação.
Uma parte da população torce ardentemente para que uma briga interna culmine com a morte da maioria dos detentos de “facções rivais”, cabendo apenas aos agentes estatais realizar a extração dos corpos. Como um frenesi da população que grita para o suicida do alto do prédio “pula, pula, pula…”. Outra aspira que um grande número de policiais seja emboscado pelos presidiários e tenham uma morte horrível. Como se não bastasse, as redes de informações dão o ar do grotesco com fotos e filmes das lesões, mutilações e corpos expostos. Cada um que mande para os seus amigos este freak show de imagos tortuosas (Se é que um sujeito desses possa ser chamado de “amigo”). Dentro das casas dos “pais de família” isso não passa de um aviso aos filhos para não se envolver com o crime, com as drogas, e com as famosas más companhias. Tudo isso como se fosse um simples programa de televisão, que para alguns, vivendo em verdadeiras ilhas de uma falsa segurança, acreditam que este mundo não pertença a eles.
Não tarda até que alguém comece a bradar por penas mais severas, sistemas mais repressivos, processos sumários… Pena de morte é sempre a preferida. O pensamento de pagar a estadia de “vagabundo” para que “eles” durmam e comam parece absurdo. Fora o fato que esses “animais” deveriam ser “exterminados” da sociedade de pessoas civilizadas. Nem entro no mérito da contradição que é uma parcela da população que se diz “de bem” exterminar a outra! Tudo isso, evidentemente, recheado com muito sensacionalismo por parte da imprensa, com seus histéricos apresentadores gritando e se agitando na frente das câmeras. “É uma inversão de valores!”, “O mundo está perdido!”, “É um mundo cão!”, bradam. Mas de quem é a culpa de tudo isso? Botamos na conta de quem?
Colocamos na conta dos “criminosos”? Estes que “voluntariamente” escolheram um caminho contra a lei? Que insistem em “nos” perturbar com sua transgressão? Colocamos na conta dos policiais? Que insistem em cometer desrespeitos aos direitos alheios? Proponho um pensamento diferente. Diferente do senso comum que tende a ser polarizado. Até porque este tipo de pensamento não tem se mostrado efetivo. Proponho que o modo de pensar a criminalidade como um problema entre dois grupos (“criminosos” e “não-criminosos” ou criminosos e policiais com o resto da população no meio) passe a ser pensado como um problema que atina à totalidade da população, formada de um grupo só, e que o ataca, infelizmente, ao fazê-lo considerar um ser humano o “inimigo”. É possível que o problema esteja no sistema? Não falo aqui em sistema de produção de bens materiais, mas um sistema de produção de dor.
Sejamos mais claros. Ainda que em proporções diferentes, policiais e “bandidos” morrem neste enfrentamento, e suas famílias ficam com ódio do outro lado. E propagam mais violência, disseminando mais dor, em um ciclo que não parece terminar. Esta violência gera um ódio que não só deixa impregnado o seu portador, transbordando e contaminando a terceiros. Principalmente com pensamentos como “e se fosse com a sua família?”. Quando o quadro está instalado, estigmatiza-se o outro como “inimigo”, e estamos abrindo uma brecha psicológica para que nenhuma humanidade seja atribuída a este ser, e com isso, tudo será permitido fazer com ele. Não se pode matar alguém sem remorso, mas se não for um outro igual a mim, mas o inimigo, seja ele “porco fardado” ou “vagabundo” (expressões que pessoalmente odeio), a coisa muda de figura. Assim como se elimina uma praga do quintal, o inimigo não merece um segundo de consciência pesada, porque ele causa dor. A sua simples existência traz uma série de sentimentos aversivos. Em alguns casos mais graves, a catarse da dor precisa ser eliminada com a tortura e degradação do inimigo. A estigmatização é tão radical quando se fala de tirar a caracterização de sua humanidade que sequer se dá o trabalho de escutar o que ele tem a dizer, tornando o processo um mero ritual de brutalidade. A alteridade inerente ao humano, que torna toda humanidade uma reunião de iguais, de desejos e aspirações, que poderia aspirar à fraternidade, é pulverizada no rolo compressor da corrente do diferente.
Acredito que já passou demais da hora de pensar que este sistema, que é apenas um sistema dentre tantos, é coprodutor da morte de presidiários e do sargento da polícia militar que morreram tristemente em uma batalha sem o menor sentido de existência. Suas famílias choram e sentem suas perdas, que infelizmente tem boa probabilidade de não ser o último incidente desta natureza. Isso tudo porque não nos damos ao trabalho de pensar, como sociedade, no motivo pelo qual essas pessoas são o combustível desse sistema perverso e tentar modificá-lo.

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