Hamlet – Shakespeare

12 05 2016

H.
“Ser ou não ser – eis a questão.

Será mais nobre sofrer na alma

Pedradas e flechadas do destino feroz

Ou pegar em armas contra o mar de angústias –

E, combatendo-o, dar-lhe fim? Morrer; dormir;

Só isso. E com o sono – dizem – extinguir

Dores do coração e as mil mazelas naturais

A que a carne é sujeita; eis a consumação

Ardente desejável. Morrer – dormir –

Dormir! Talvez sonhar. Aí está o obstáculo!

Quando tivermos escapado ao tumulto vital

Nos obrigam a hesitar – e é essa reflexão

Que dá a desventura uma vida tão longa.

Pois quem suportaria o açoite e os insultos do mundo,

A afronta do opressor, o desdém do orgulhoso,

As pontadas do amor humilhado, as delongas da lei,

A prepotências do mando, e o achincalhe

Que mérito paciente recebe dos inúteis,

Podendo, ele próprio, encontrar repouso

Com um simples punhal? Quem agüentaria os fardos,

Gemendo e suando numa vida servil,

Senão porque o terror de alguma coisa após a morte –

O país não descoberto, de cujos confins

Jamais voltou nenhum viajante – nos confunde a vontade,

Nos faz preferir e suportar os males que já temos,

A fugirmos pra outros que desconhecemos?”

SHAKESPEARE, William. Hamlet. In. Shakespeare: Obras escolhidas. Tradução de Millôr Fernandes. 560-561.

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