O Brasil está no caminho certo da educação? (Marcelino Lira)

23 09 2016

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A reforma recentemente proposta pelo nosso Ministro da Educação implementa uma série de “possíveis” aberrações. A especialização já delineada no ensino médio, a retirada de Educação Física, de Sociologia, de Filosofia, de Artes são sintomáticas de novos e tenebrosos tempos. Para isso proponho a situação de dois alunos fictícios que se tornarão “notáveis” em suas respectivas áreas em 2070, e terão por base a educação proposta nos dias atuais.

Os efeitos deletérios não são uma condição necessária, mas possível diante do quadro de desconhecimento de uma visão mais ampla do mundo, aliada a uma imaturidade inerente à idade dos envolvidos.

Aluno 01:

O aluno 01 teve toda a sua educação pautada nos princípios da reforma curricular realizada em 2016. Como demonstrava seu profundo interesse pela área de exatas descartou, de pronto, todas aquelas matérias que considerava um estorvo, como História, Geografia, Filosofia e Sociologia. Literatura o cansava por demais! Como sua mãe sabia o que ele estava fazendo, porque naquela altura já contava com seus 15 anos, adentrou o mundo das ciências exatas sem perder tempo com outras áreas. Nem a Biologia o interessava. “Matemática, Física e Química na veia!” – dizia.  O garoto era tão bom que ganhou vários concursos de Matemática/Lógica que entrou. Foi reconhecido internacionalmente como potencial descobridor de grandes coisas. Sua família tinha posses, e investiu pesado em cursos avançados no garoto. Entrou no curso de Engenharia Química e sempre foi muito respeitado pelos colegas como um excelente técnico de sua área.

Um dia ele toma contato com um grupo radical, que considera que uma determinada região do país estava impedindo o pleno desenvolvimento do país. Como nunca estudou direito o fenômeno do totalitarismo, da importância do respeito às diferenças, começa a produzir armas químicas para seus novos “amigos”, o que causou uma série de mortes em verdadeira carnificina xenófoba.

 

Aluno 02:

O aluno 02, assim como o aluno 01, teve sua educação direcionada desde que, diante de seus 14 anos de idade, decidiu que seria médico. Seu interesse sobre o funcionamento humano sempre foi notável. Sendo assim, escolheu – nessa mesma época – as matérias que considerou precisar para ser um “bom médico”, e descartou as outras. Quais seriam as matérias escolhidas? Biologia, com certeza, Física e Química, Matemática para embasar as duas anteriores (até porque várias respostas fisiológicas dependem de Física e Química). Artes? Sociologia? Filosofia? Sem o menor sentido… Literatura então? Nem pensar! Como era bastante inteligente, o aluno 02 adentrou as carteiras da Faculdade de Medicina. Sempre apontado pelos professores como um bom conhecedor da técnica, galgou posição de prestígio entre os seus pares. Os seus pacientes, no entanto, se queixavam que ele era “muito frio”. Centrava-se apenas no fenômeno e não no ser humano que sofre.

Vários anos depois de formado e exercendo a profissão, descobriram em sua casa várias pessoas que eram mantidas aprisionadas e usadas como cobaias para seus experimentos espúrios. Vários corpos foram identificados em seu vasto quintal. Ficou demonstrado que ele realizava pessoalmente experiências sobre aplicação e desenvolvimento de medicamentos; experiências sobre o mecanismo da dor, e de como ela pode provocar a morte, entre outros. Segundo o aluno 02, não havia como realizar a experiência senão em humanos para manter fidedignidade com o propósito. Para ele, o ganho obtido para a humanidade compensava o sofrimento de poucos. Jamais tomou contato com as aberrações éticas produzidas pelos médicos nazistas e seus experimentos.

Infelizmente são histórias que podem se tornar verídicas. Se a exclusão de matérias na formação universitária já é um problema significativo, o que se pode dizer do ensino médio ou mesmo do ensino fundamental? Algumas matérias nos fazem pensar criticamente a nossa estada com outros humanos neste planeta. A história nos dá a experiência humana com o passar dos milênios, incluindo o que deu certo e o que não. A Filosofia nos introduz a pensar – incluindo de forma ética – no sentido do que fazermos, bem como da dificuldade de produzir “certeza”. É uma aula de humildade. A Educação Física que previne um sem número de males a que o corpo está sujeito, além de melhorar a qualidade de vida. A Sociologia que nos dá a consciência de grupalidade, dos fenômenos de massa, de nossa capacidade de organização e interação. E as artes? Elas são expressão verdadeira de humanidade. A obra de arte tem a capacidade de comunicar o incomunicável. De sacudir a estagnação e acalmar a agitação. Isso para citar apenas as mais faladas na referida reforma… Nem entro no mérito de outras igualmente importantes apenas sob a pena de não ser suficientemente conciso.

Um desserviço para todos os brasileiros na opinião desse professor que tem bem mais de uma década de ensino.

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