“Ih! Lá vem o textão!” (Marcelino Lira)

4 12 2016

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   Recentemente, no Brasil, o aplicativo Whatsapp, por ordem judicial, ficou sem operar, e causou o maior rebuliço. O que mostra a importância das redes sociais ou equivalentes como meio de comunicação. No entanto, sem querer parecer um pouco antiquado, e sem desmerecer as novas formas de expressão, elas favorecem um fenômeno cada vez mais comum, que é o objeto desse escrito.

Em uma rede social pública, também recentemente, me deparei com alguns comentários que me causaram acento. Alguns garotos (que só posteriormente descobri serem pessoas jovens, mas até então não sabia as suas idades) tinham tanta convicção em suas afirmações sobre um determinado tema que fiquei espantado. Não pelo conteúdo, que isso fique claro. O que me espantou foram as curtas frases que usaram para uma afirmação de tamanha magnitude. Não se deram ao trabalho de justificar a sua afirmação, expressando a sua opinião como grau de verdade absoluta, e não como impressão sua do mundo, ou mesmo como verdade particular. Então tive a curiosidade de saber de onde eles tiravam tanta certeza.

Antes de indagar sobre a origem de sua convicção, sabia que o assunto tratado não era uma dentre as diversas questões de onde os argumentos não possuem qualquer significado. Por exemplo, “Você pode me demonstrar a existência de Deus?”. Quando uma pergunta dessas é feita, o sujeito indagado pode transitar sobre diversas argumentações possíveis, conjecturas, proposições, marcos basilares, e no fim – no mais das vezes –  não saberá ao certo explicar os motivos pelos quais acredita, e com o que conseguir levantar tentará demonstrar a existência de Deus. No fundo, ele sente que existe uma força maior que ele, que está acima dele, e tem, em seu íntimo, a certeza dessa presença. Com efeito, por mais que qualquer pessoa tente demovê-lo desse sentimento, por mais engenhoso que seja o argumento, nada o demoverá dessa verdade. Ele simplesmente a sente. É uma questão que envolve um sentimento perante a existência. Assim podemos tratar a questão da experiência pessoal sobre o otimismo ou o amor. Diferente dessa natureza era a natureza técnica e grandemente margeada pela racionalidade demonstrável do assunto a ser tratado. Qual o assunto? Pergunta o leitor dessa inquieto… Segurança pública. Como refrear a “onda de violência”?

Diziam eles, de forma sucinta, que a violência urbana seria resolvida com a simples aplicação de pena de morte. Assim. Sem mais. Sem grandes ressalvas. (Nem pequenas, o que já seria bom.). Fiquei tão surpreso com as afirmações que a curiosidade que não me deixa me impeliu a perguntar os motivos pelos quais eles acreditavam tão piamente na assertiva. O simples fato de mostrar para meus interlocutores que não acreditar na pena de morte como solução foi suficiente para começarem o ataque a mim, e não uma contra-argumentação as ideias. Fui então adjetivado por uma série de rótulos, como “comunista”, “esquerdopata”, “defensor do direito dos manos”… E o pior xingamento de todos: Advogado! O pior que alguns deles acabaram sabendo que além dos meus vícios que eles não conhecem, eu realmente também sou advogado. Foi quando os textos dele começaram a ficar mais brandos. Até porque existe o mito que todos os advogados processam as pessoas por nada ou pouca coisa, o que não é verdade.

Mesmo que o fato até então relatado seja, per se, interessante, mais ainda era como eles tratavam os textos e argumentações apontados por mim. Em seus próprios textos, dificilmente passavam das trinta palavras. O mais longo deles tinha umas cem. O que espantou era a certeza sobre uma matéria técnica tão complexa, com tantas variáveis, com tantos ângulos de estudo, com até cem palavras. Ficava pensando com meus botões: “como isso é possível? Como é possível ter convicção racional com tão poucos argumentos?”. Será que seriam tão capazes para síntese que desvendariam o sentido da vida em uma redação de trinta linhas? Por certo o encontrado foi uma qualidade dos argumentos que seguiam a linha aproximada de frases como “isso é falta de pau”… Mesmo com algumas tiradas e apontamentos “deselegantes” não perdi o equilíbrio em nenhum momento, até porque a minha curiosidade de origem científica não permitia, e queria saber como era aquele ser humano (fora isso não é do meu comportamento perder a paciência ou me afetar por ofensas). Motivava a minha ação descobrir como eles funcionavam.

“No meu tempo” (lembrem que não quero parecer velho) os amigos se reuniam nas ruas para conversar. Era uma prática que durava horas. Discutíamos vários assuntos que não eram “resolvidos” em poucas palavras. Como éramos pessoas saudáveis (considerando saudável como aquele sujeito razoavelmente equilibrado!), sempre haviam controvérsias. Não éramos uníssonos sobre a opinião do que falávamos. Inevitavelmente (graças!) discordávamos, e ganhávamos agradáveis horas suplementares de argumentações e demonstrações. Naquela época não havia internet para esse exercício… Nessa época presente existe, e as facilidades que ela oferece dão imensas possibilidades. Uma delas é a de conseguir ter acesso a novas pessoas, imagens e ideias de locais onde os sentidos não alcançam. Antes esses contatos se davam através dos livros. Depois pelas cartas, telégrafos rádio e televisão. Depois pelos fios da internet ainda discada. Hoje… Pelo telefone celular, onde quer que o sujeito se encontre.

Voltando ao assunto, e tudo isso para dizer que com o passar da discussão, mais uma “acusação” foi acrescida a mim. Quando postava algo, apresentando racionalmente argumentos opostos vinha a frase em resposta: “Ih! Lá vem o textão!”. Minha impressão é que aqueles garotos estavam mais motivados pela emoção que pela razão. Entretanto mesmo quando somos motivados pela emoção somos capazes de desenvolver ideias de maneira elaborada e bastante profunda. Que o diga Eça de Queiroz em suas cartas apaixonadas, Machado de Assis em seus contos ou Goethe em seus romances. A velocidade da informação estaria engolfando a capacidade de desenvolver um raciocínio? E se esse raciocínio precisa ser bastante trabalhado para ser exaurido em sua proposição estaria excluído pela velocidade dos avançados meios de comunicação? São possibilidades, mas ela também encobre outros fenômenos curiosos da atualidade. Sob o manto do “Essa é minha opinião e você tem que respeitar”, não se argumenta mais. Motivos pelos quais se faz ou se deixa de fazer algo deixaram de fazer parte de linhas discursivas e passaram a ser meras óticas (ou segundo brincadeira de um colega mera doxa). Pior que isso? Quando não se pensa exatamente igual ao interlocutor, o outro passa a ser rotulado como “idiota” ou coisa pior… Normalmente pior! Há um desrespeito ao diferente, ainda que a premissa seja “você tem que respeitar a minha opinião”.

Caso o leitor perguntasse a mim, agora, sobre o que é isso que aconteceu, não saberia responder de pronto. Minha forma de ser precisa de reflexão para saber de um fenômeno. Não posso afirmar que essa “amostra” seja “representativa” de um fenômeno geral. Não posso afirmar se é a internet ou não que produz essas formas de pensar. Não posso também afirmar se sou ou não um dinossauro por essa minha forma de pensar e de me relacionar (e que fez a faculdade interia sem consultar a internet e todos os trabalhos entregues devidamente datilografados – agora sim parecendo bem “antigo”). O que me resta é prosseguir necessitando de uma forma argumentativa de conversação, que tenta explicar algumas coisas através da racionalidade, quando assim merecem ser tratadas. E que tenta sentir com os outros o que não pode ser percebido pela racionalidade. Principalmente considerar outros seres humanos como companheiros de viagem sobre essa Terra. Que devem total respeito e consideração.

Quantas palavras deve ter um texto para ser considerado um “textão”? De acordo com os padrões atuais eu não sei também. O que posso dizer é que essas breves palavras possuem ao todo mil duzentos e noventa palavras escritas…

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