Vide cor meum – Dante Aliguieri

22 12 2016

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E pensando di lei
Mi sopragiunse uno soave sonno
Ego dominus tuus
Vide cor tuum
E d’esto core ardendo
Cor tuum
Lei paventosa
Umilmente pascea.
Appreso gir lo ne vedea piangendo.
La letizia si convertia
In amarissimo pianto
Io sono in pace
Cor meum
Io sono in pace
Vide cor meum
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Carta Aos Missionários (Biquini Cavadão)

8 12 2016

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Missionários de um mundo pagão
Proliferando ódio e destruição
Vêm dos quatro cantos da terra
A morte, a discórdia
A ganância e a guerra
E a guerra…

Missionários e missões suicidas
Crianças matando
Crianças inimigas
Generais de todas as nações
Fardas bonitas, condecorações
Documentam na nossa história
O seu rastro sujo
De sangue e glória…

Missionários de um mundo pagão
Proliferando ódio e destruição
Vêm dos quatro cantos da terra
A morte, a discórdia
A ganância e a guerra
E a guerra…

Missionários e missões suicidas
Crianças matando
Crianças inimigas
Generais de todas as nações
Fardas bonitas, condecorações
Documentam na nossa história
O seu rastro sujo
De sangue e glória…

Vindo de todas as partes
Mas indo prá lugar algum
Assim caminha a raça humana
Se devorando um a um
Gritei para o horizonte
Ele não me respondeu
E então fechei os olhos, sua voz
Assim me bateu…





“Ih! Lá vem o textão!” (Marcelino Lira)

4 12 2016

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   Recentemente, no Brasil, o aplicativo Whatsapp, por ordem judicial, ficou sem operar, e causou o maior rebuliço. O que mostra a importância das redes sociais ou equivalentes como meio de comunicação. No entanto, sem querer parecer um pouco antiquado, e sem desmerecer as novas formas de expressão, elas favorecem um fenômeno cada vez mais comum, que é o objeto desse escrito.

Em uma rede social pública, também recentemente, me deparei com alguns comentários que me causaram acento. Alguns garotos (que só posteriormente descobri serem pessoas jovens, mas até então não sabia as suas idades) tinham tanta convicção em suas afirmações sobre um determinado tema que fiquei espantado. Não pelo conteúdo, que isso fique claro. O que me espantou foram as curtas frases que usaram para uma afirmação de tamanha magnitude. Não se deram ao trabalho de justificar a sua afirmação, expressando a sua opinião como grau de verdade absoluta, e não como impressão sua do mundo, ou mesmo como verdade particular. Então tive a curiosidade de saber de onde eles tiravam tanta certeza.

Antes de indagar sobre a origem de sua convicção, sabia que o assunto tratado não era uma dentre as diversas questões de onde os argumentos não possuem qualquer significado. Por exemplo, “Você pode me demonstrar a existência de Deus?”. Quando uma pergunta dessas é feita, o sujeito indagado pode transitar sobre diversas argumentações possíveis, conjecturas, proposições, marcos basilares, e no fim – no mais das vezes –  não saberá ao certo explicar os motivos pelos quais acredita, e com o que conseguir levantar tentará demonstrar a existência de Deus. No fundo, ele sente que existe uma força maior que ele, que está acima dele, e tem, em seu íntimo, a certeza dessa presença. Com efeito, por mais que qualquer pessoa tente demovê-lo desse sentimento, por mais engenhoso que seja o argumento, nada o demoverá dessa verdade. Ele simplesmente a sente. É uma questão que envolve um sentimento perante a existência. Assim podemos tratar a questão da experiência pessoal sobre o otimismo ou o amor. Diferente dessa natureza era a natureza técnica e grandemente margeada pela racionalidade demonstrável do assunto a ser tratado. Qual o assunto? Pergunta o leitor dessa inquieto… Segurança pública. Como refrear a “onda de violência”?

Diziam eles, de forma sucinta, que a violência urbana seria resolvida com a simples aplicação de pena de morte. Assim. Sem mais. Sem grandes ressalvas. (Nem pequenas, o que já seria bom.). Fiquei tão surpreso com as afirmações que a curiosidade que não me deixa me impeliu a perguntar os motivos pelos quais eles acreditavam tão piamente na assertiva. O simples fato de mostrar para meus interlocutores que não acreditar na pena de morte como solução foi suficiente para começarem o ataque a mim, e não uma contra-argumentação as ideias. Fui então adjetivado por uma série de rótulos, como “comunista”, “esquerdopata”, “defensor do direito dos manos”… E o pior xingamento de todos: Advogado! O pior que alguns deles acabaram sabendo que além dos meus vícios que eles não conhecem, eu realmente também sou advogado. Foi quando os textos dele começaram a ficar mais brandos. Até porque existe o mito que todos os advogados processam as pessoas por nada ou pouca coisa, o que não é verdade.

Mesmo que o fato até então relatado seja, per se, interessante, mais ainda era como eles tratavam os textos e argumentações apontados por mim. Em seus próprios textos, dificilmente passavam das trinta palavras. O mais longo deles tinha umas cem. O que espantou era a certeza sobre uma matéria técnica tão complexa, com tantas variáveis, com tantos ângulos de estudo, com até cem palavras. Ficava pensando com meus botões: “como isso é possível? Como é possível ter convicção racional com tão poucos argumentos?”. Será que seriam tão capazes para síntese que desvendariam o sentido da vida em uma redação de trinta linhas? Por certo o encontrado foi uma qualidade dos argumentos que seguiam a linha aproximada de frases como “isso é falta de pau”… Mesmo com algumas tiradas e apontamentos “deselegantes” não perdi o equilíbrio em nenhum momento, até porque a minha curiosidade de origem científica não permitia, e queria saber como era aquele ser humano (fora isso não é do meu comportamento perder a paciência ou me afetar por ofensas). Motivava a minha ação descobrir como eles funcionavam.

“No meu tempo” (lembrem que não quero parecer velho) os amigos se reuniam nas ruas para conversar. Era uma prática que durava horas. Discutíamos vários assuntos que não eram “resolvidos” em poucas palavras. Como éramos pessoas saudáveis (considerando saudável como aquele sujeito razoavelmente equilibrado!), sempre haviam controvérsias. Não éramos uníssonos sobre a opinião do que falávamos. Inevitavelmente (graças!) discordávamos, e ganhávamos agradáveis horas suplementares de argumentações e demonstrações. Naquela época não havia internet para esse exercício… Nessa época presente existe, e as facilidades que ela oferece dão imensas possibilidades. Uma delas é a de conseguir ter acesso a novas pessoas, imagens e ideias de locais onde os sentidos não alcançam. Antes esses contatos se davam através dos livros. Depois pelas cartas, telégrafos rádio e televisão. Depois pelos fios da internet ainda discada. Hoje… Pelo telefone celular, onde quer que o sujeito se encontre.

Voltando ao assunto, e tudo isso para dizer que com o passar da discussão, mais uma “acusação” foi acrescida a mim. Quando postava algo, apresentando racionalmente argumentos opostos vinha a frase em resposta: “Ih! Lá vem o textão!”. Minha impressão é que aqueles garotos estavam mais motivados pela emoção que pela razão. Entretanto mesmo quando somos motivados pela emoção somos capazes de desenvolver ideias de maneira elaborada e bastante profunda. Que o diga Eça de Queiroz em suas cartas apaixonadas, Machado de Assis em seus contos ou Goethe em seus romances. A velocidade da informação estaria engolfando a capacidade de desenvolver um raciocínio? E se esse raciocínio precisa ser bastante trabalhado para ser exaurido em sua proposição estaria excluído pela velocidade dos avançados meios de comunicação? São possibilidades, mas ela também encobre outros fenômenos curiosos da atualidade. Sob o manto do “Essa é minha opinião e você tem que respeitar”, não se argumenta mais. Motivos pelos quais se faz ou se deixa de fazer algo deixaram de fazer parte de linhas discursivas e passaram a ser meras óticas (ou segundo brincadeira de um colega mera doxa). Pior que isso? Quando não se pensa exatamente igual ao interlocutor, o outro passa a ser rotulado como “idiota” ou coisa pior… Normalmente pior! Há um desrespeito ao diferente, ainda que a premissa seja “você tem que respeitar a minha opinião”.

Caso o leitor perguntasse a mim, agora, sobre o que é isso que aconteceu, não saberia responder de pronto. Minha forma de ser precisa de reflexão para saber de um fenômeno. Não posso afirmar que essa “amostra” seja “representativa” de um fenômeno geral. Não posso afirmar se é a internet ou não que produz essas formas de pensar. Não posso também afirmar se sou ou não um dinossauro por essa minha forma de pensar e de me relacionar (e que fez a faculdade interia sem consultar a internet e todos os trabalhos entregues devidamente datilografados – agora sim parecendo bem “antigo”). O que me resta é prosseguir necessitando de uma forma argumentativa de conversação, que tenta explicar algumas coisas através da racionalidade, quando assim merecem ser tratadas. E que tenta sentir com os outros o que não pode ser percebido pela racionalidade. Principalmente considerar outros seres humanos como companheiros de viagem sobre essa Terra. Que devem total respeito e consideração.

Quantas palavras deve ter um texto para ser considerado um “textão”? De acordo com os padrões atuais eu não sei também. O que posso dizer é que essas breves palavras possuem ao todo mil duzentos e noventa palavras escritas…





Nordeste (Marcelino Lira)

27 10 2016

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Resposta breve a “acusação” de ser nordestino, estes nós “mortos de fome improdutivos e dependentes de bolsa-família”…

 

Tobias Barreto

Castro Alves

Jorge Amado

João Cabral de Melo Neto

Raquel de Queiroz

Ariano Suassuna

Gonçalves Dias

Capistrano de Abreu

Manuel Bandeira

José Lins do Rego

Graça Aranha

Augusto dos Anjos

Joaquim Cardoso

Carlos Pena Filho

Lenine

Alceu Valença

Fred 04

Chico Science

Nação Zumbi

Banda de Pífanos de Caruaru

Mundo Livre S.A.

Quarteto Armorial

Orquestra Armorial

Cordel do Fogo Encantado

Sa Grama

Mestre Ambrósio

Rabequeiros de Pernambuco

Luiz Gonzaga

Jackson do Pandeiro

Siba

Sivuca

Caetano Veloso

Maria Bethania

Gilberto Gil

Gal Costa

Tom Zé

Zeca Baleiro

João Gilberto

Teixeira de Freitas

Clóvis Beviláqua

Aurélio Buarque de Holanda

Joaquim Nabuco

Gilberto Freire

Silvio Romero

Roberto Lira

Pontes de Miranda

Ruy Barbosa

Cláudio Souto

Nelson Saldanha

Anísio Teixeira

Paulo Freire

Josué de Castro

Joaquim Cardoso

Nise da Silveira

Correia Picanço

José Leite Lopes

Casemiro Montenegro Filho

Israel Vainsencher

Otto de Alencar

Abelardo da Hora

Francisco Brennand

Cícero Dias

Mestre Vitalino

Bispo do Rosário…

Fiquemos por aqui, porque a resposta é “breve”!

 





O Brasil está no caminho certo da educação? (Marcelino Lira)

23 09 2016

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A reforma recentemente proposta pelo nosso Ministro da Educação implementa uma série de “possíveis” aberrações. A especialização já delineada no ensino médio, a retirada de Educação Física, de Sociologia, de Filosofia, de Artes são sintomáticas de novos e tenebrosos tempos. Para isso proponho a situação de dois alunos fictícios que se tornarão “notáveis” em suas respectivas áreas em 2070, e terão por base a educação proposta nos dias atuais.

Os efeitos deletérios não são uma condição necessária, mas possível diante do quadro de desconhecimento de uma visão mais ampla do mundo, aliada a uma imaturidade inerente à idade dos envolvidos.

Aluno 01:

O aluno 01 teve toda a sua educação pautada nos princípios da reforma curricular realizada em 2016. Como demonstrava seu profundo interesse pela área de exatas descartou, de pronto, todas aquelas matérias que considerava um estorvo, como História, Geografia, Filosofia e Sociologia. Literatura o cansava por demais! Como sua mãe sabia o que ele estava fazendo, porque naquela altura já contava com seus 15 anos, adentrou o mundo das ciências exatas sem perder tempo com outras áreas. Nem a Biologia o interessava. “Matemática, Física e Química na veia!” – dizia.  O garoto era tão bom que ganhou vários concursos de Matemática/Lógica que entrou. Foi reconhecido internacionalmente como potencial descobridor de grandes coisas. Sua família tinha posses, e investiu pesado em cursos avançados no garoto. Entrou no curso de Engenharia Química e sempre foi muito respeitado pelos colegas como um excelente técnico de sua área.

Um dia ele toma contato com um grupo radical, que considera que uma determinada região do país estava impedindo o pleno desenvolvimento do país. Como nunca estudou direito o fenômeno do totalitarismo, da importância do respeito às diferenças, começa a produzir armas químicas para seus novos “amigos”, o que causou uma série de mortes em verdadeira carnificina xenófoba.

 

Aluno 02:

O aluno 02, assim como o aluno 01, teve sua educação direcionada desde que, diante de seus 14 anos de idade, decidiu que seria médico. Seu interesse sobre o funcionamento humano sempre foi notável. Sendo assim, escolheu – nessa mesma época – as matérias que considerou precisar para ser um “bom médico”, e descartou as outras. Quais seriam as matérias escolhidas? Biologia, com certeza, Física e Química, Matemática para embasar as duas anteriores (até porque várias respostas fisiológicas dependem de Física e Química). Artes? Sociologia? Filosofia? Sem o menor sentido… Literatura então? Nem pensar! Como era bastante inteligente, o aluno 02 adentrou as carteiras da Faculdade de Medicina. Sempre apontado pelos professores como um bom conhecedor da técnica, galgou posição de prestígio entre os seus pares. Os seus pacientes, no entanto, se queixavam que ele era “muito frio”. Centrava-se apenas no fenômeno e não no ser humano que sofre.

Vários anos depois de formado e exercendo a profissão, descobriram em sua casa várias pessoas que eram mantidas aprisionadas e usadas como cobaias para seus experimentos espúrios. Vários corpos foram identificados em seu vasto quintal. Ficou demonstrado que ele realizava pessoalmente experiências sobre aplicação e desenvolvimento de medicamentos; experiências sobre o mecanismo da dor, e de como ela pode provocar a morte, entre outros. Segundo o aluno 02, não havia como realizar a experiência senão em humanos para manter fidedignidade com o propósito. Para ele, o ganho obtido para a humanidade compensava o sofrimento de poucos. Jamais tomou contato com as aberrações éticas produzidas pelos médicos nazistas e seus experimentos.

Infelizmente são histórias que podem se tornar verídicas. Se a exclusão de matérias na formação universitária já é um problema significativo, o que se pode dizer do ensino médio ou mesmo do ensino fundamental? Algumas matérias nos fazem pensar criticamente a nossa estada com outros humanos neste planeta. A história nos dá a experiência humana com o passar dos milênios, incluindo o que deu certo e o que não. A Filosofia nos introduz a pensar – incluindo de forma ética – no sentido do que fazermos, bem como da dificuldade de produzir “certeza”. É uma aula de humildade. A Educação Física que previne um sem número de males a que o corpo está sujeito, além de melhorar a qualidade de vida. A Sociologia que nos dá a consciência de grupalidade, dos fenômenos de massa, de nossa capacidade de organização e interação. E as artes? Elas são expressão verdadeira de humanidade. A obra de arte tem a capacidade de comunicar o incomunicável. De sacudir a estagnação e acalmar a agitação. Isso para citar apenas as mais faladas na referida reforma… Nem entro no mérito de outras igualmente importantes apenas sob a pena de não ser suficientemente conciso.

Um desserviço para todos os brasileiros na opinião desse professor que tem bem mais de uma década de ensino.





Por que as nuvens choram? (Marcelino Lira).

11 09 2016

chuva

Minha querida,

Você sabe o motivo de chover?

As nuvens nos viram,

E ficaram comovidas.

O todo construído,

Os momentos juntos,

Tanto compartilhado!

 

Olhando de cima

Começaram a chorar.

Suas lágrimas banharam

Aqueles que passavam,

Inclusive a nós.

Pobres nuvens!

Não pobre de nós…

 

Elas não viveram

O que vivemos.

Não compartilharam

Aquilo que compartilhamos.

Não gravaram no tempo,

Para sempre,

A nossa história.





Hamlet – Shakespeare

12 05 2016

H.
“Ser ou não ser – eis a questão.

Será mais nobre sofrer na alma

Pedradas e flechadas do destino feroz

Ou pegar em armas contra o mar de angústias –

E, combatendo-o, dar-lhe fim? Morrer; dormir;

Só isso. E com o sono – dizem – extinguir

Dores do coração e as mil mazelas naturais

A que a carne é sujeita; eis a consumação

Ardente desejável. Morrer – dormir –

Dormir! Talvez sonhar. Aí está o obstáculo!

Quando tivermos escapado ao tumulto vital

Nos obrigam a hesitar – e é essa reflexão

Que dá a desventura uma vida tão longa.

Pois quem suportaria o açoite e os insultos do mundo,

A afronta do opressor, o desdém do orgulhoso,

As pontadas do amor humilhado, as delongas da lei,

A prepotências do mando, e o achincalhe

Que mérito paciente recebe dos inúteis,

Podendo, ele próprio, encontrar repouso

Com um simples punhal? Quem agüentaria os fardos,

Gemendo e suando numa vida servil,

Senão porque o terror de alguma coisa após a morte –

O país não descoberto, de cujos confins

Jamais voltou nenhum viajante – nos confunde a vontade,

Nos faz preferir e suportar os males que já temos,

A fugirmos pra outros que desconhecemos?”

SHAKESPEARE, William. Hamlet. In. Shakespeare: Obras escolhidas. Tradução de Millôr Fernandes. 560-561.